sábado, 19 de maio de 2012

Chuva pra minha fertilidade

*Pra Pipa, a moça menina que voltará a acreditar em príncipes

Aqueles velhos dias de chuva voltaram. Uma vez por ano eles voltam. A cada ano, em sua devida estação, tenho plantado sementes bem específicas, cuja própria terra me ensinou a semeá-las adequadamente. Se fora da estação, com ou sem chuva, elas não rompem a terra novamente virgem, muito menos germinam. Assim como a devida chuva, uma vez por ano volto a rememorar minhas saudades. Diferentemente de Gaia, por vezes gero em meu seio colocações inadequadas: chove quando minhas sementes precisam de sol, e há uma estiagem quando nada de água cai. Percebi que meu ano pouco tem forma e sentido. Meu ano é finito, enquanto suportar abrir os olhos pela manhã. E nessa duração vou semeando, aguando e colhendo à mercê de fatores que - muitas vezes - de nada tenho a ver. É complicado quando chove de mais. Mas sei que sem essa chuva tanta secura de antes não teria como curar. Só assim pra deixar esse seio novamente fértil. 

A foto tb é do velho. 

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A palavramundo não se faz

Quando criança fiquei a olhar para os lados. Olhei para cima, para baixo e todas as diagonais elementares e cores corridas de um prisma. Olhei o mundo antes de olhar por uma janela que me mostrou o mundo. Hoje as janelas são menores e mais coloridas, nos encantam e nos levam para onde elas se abrem. O que percebo foi que minha janela, talvez porque simples, me ensinou que era mais vibrante olhar, antes, o mundo que se abria diante dos meus olhos. O tempo lento de descobrir a palavramundo curvou-se ao tempo eletrizante do liga e desliga das novas e superápidas janelas eletrônicas. Antes, acordava e ouvia o som por detrás da minha janela que, lentamente, rombia seu segredo com a chave correspondente. Se fosse hoje, meninosantiago já levantaria com o som na cabeça, assim como o moço o faz. E não gostamos disso. Mas entendemos o processo. E damos graças a Ele que somos do tempo lento da palavramundo. Pena sente o velho, que lamenta não poder ver essa geração inerte se desfazer na sua ilusão tecnológica.

Img do moçosantiago.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A última e o primeiro

A última agonizava, chegava-se ao fim - chorava. O primeiro sorria de orelha a orelha, ainda que sem jeito - verdadeiro. Enquanto ela tentava em vão enganar seus relógios, ele sentava alegremente a voar pelo tempo. Inútil a última tentativa de dissipar, inútil pensar que haveria retorno, inútil sentir tanto aperto no coração. Tudo que se mostrava agonizar o fazia pelo bem até então vivido. O sentimento verdadeiro era o bom, tanto que falta já lhe fazia da existência que chegava ao fim. Pensamos - e queremos - que dessa passagem com aperto se lembre. Dores dessas sentem os que amam profundamente e são capazes de suportar, esses algozes! E tal início, ele, ainda jovem como criança, vem povoar o coração com um friuzinho na barriga que pensamos - e queremos - que dure tanto quando dure o sentimento daqueles que amam profundamente. Ela, a última vez que os veremos namorados, termina em breve. Ele, o primeiro dia que os veremos casados, começa em breve. Serei testemunha.

ao amigo Renato Menezes, que casará hoje, logo mais. 


ps: foto roubada do blog do companheiro Guto Sonemberg, do qual sou grande admirador

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Outono quente



É Outono, e tenho que, apesar da juventude, me esquivar de algumas coisas cada vez mais. Uma delas são pessoas. Tenho caminhado lentamente nos últimos dias, buscando manter serenidade e auto-confiança. Não me preocupo muito com minha estima, já que minha parte criança, moço e velho é bem resolvida. Quando um exagera, outro delicadamente pondera. Se pondera de mais, o outro senta e descança, espera o tempo - esse deus das curas impossíveis -  passar. Pessoas entram e saem todos os dias da minha vida. Algumas, percebo, tem no olhar uma pequena parte antes minha: pode ser uma saudade escondida. Outras, e dessas me afasto, mostram logo uma prévia de algum erro meu: e pensam acertar sempre! Um banquinho de madeira que gosto eu não me desfaço. Uma cadeira cara e lustrosa, que não me cativa, me desfaço. Às vezes me pergunto se é justo para com um outro tal atitude... mas me absolvo rapidamente, imaginando que ele tão se basta de sí que, insignificante que sou, não sentirá saudade. São tempos quentes esse Outono que vivo.    

ps: a foto é no moçosantiago, de sua varanda. 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Será sempre saudade


Ter na lembrança esse pedaço de você é a certeza que será sempre saudade. É mais carne no meu peito do que pensamento ou desejo. E saudade não passa. Daqui certo tempo quero te olhar, encarar, e assim como sempre esconder meus desejos vicerais. Te dou aquilo que é metafórico com medo de sermos iguais. Seus sussurros são sempre saudade. Respondo que aprisiona e você continua com a mesma resposta em seu olhar. Sua resposta contradiz seu sorriso, seu toque, e sua educação. Eu não deveria morrer assim de amor. Nem sempre saudade é simples. Preferiria um pouco de esquecimento. E quando digo que não preciso, aquele que escuta ri, e maliciosamente consente com a vida que, passando, ri também de mim e desse amor sempre saudade.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Apresentações

Essa noite apresentei vocês dois. Você, de antes, precisava conhecer você, de depois. Senão eu é quem ficaria infeliz. Entender que passado não pode nem deve enfrentar o futuro - e vice-versa - é preciso. Assim vocês dois podem, quem sabe, aprender alguma coisa um com o outro. Das lições que tiraria desse encontro, separo o respeito pelo que passou e pelo que está por vir. Cada qual precisa entender sua riqueza e respeitar a riqueza do outro, sob o risco da infelicidade de cada uma das partes, inclusive a minha. A sabedoria do velho diabo, assim como a inocência da criança precisam ser entendidas cada um nas suas condições primárias. O diabo é sábio porque é velho, a criança peralta porque é nova. E eu, nessa história, procuro a sabedoria do velho sem deixar a peraltice do menino. Quase um diabinho.

domingo, 1 de abril de 2012

O passar é doce



Terça fora mais um aniversário e eu, longe daqueles que verdadeiramente amo, durmira sem ter à boca um sequer pedaço de bolo ou doce enroladinho. Nos dias sequintes, assim que o dia amanhecera, relembrara pequenos pedaços doces da minha passagem por esse caminho pra que, assim, me mantivesse no centro dos meus sentimentos. A contemplação dos dias ao passar é doce. Seu passar, em si, constante. Fiz meu caminho adequadamente nesses dias. Tantos passos comedidos, tantas palavras quase ditas. No final, reflexos de pensamentos que não me levariam a nada. Pensamentos em relação a mim e pensamentos em relação à tudo mais. Me lembro quando cheguei por aqui: sempre tendo que explicar o lugar de onde eu vinha. De certa forma, isso têm-me feito bem. Ter a certeza de que tenho coisas novas pra dizer é que me faz ficar por aqui.

*foto de Marcos Andersen

sexta-feira, 23 de março de 2012

Meus Velhos Costumes


Acordo mais cedo com uma lembrança que beira meus velhos costumes. Volto a dormir para rememorar tais costumes e tirar algumas satisfações que, pelo jeito, ainda me roubam a calmaria de uma noite fria. Foi em vão. Repetiu-se a mesma ausência de quando em determinado momento você se foi. Pra mim era tudo assunto resolvido, acabado. Havia seguido, assim como sei que você seguiu seu caminho. Um pé de amora surge em meu caminho. Subo em seus galhos que vergam horrores e apanho algumas poucas maduras. Percebo um receio de manchar a roupa branca. Lembranças confusas sobre fatos, pra mim, mal acabados. Se pudesse dizer o que isso representa hoje acho que seria um punhado de fotografias amareladas, com certa fragrância que (me lembro) de manhã preenchia meus sonhos enquanto andava com uma velha calça de moletom na qual eu inteiro cabia dentro. Como posso esquecer dos costumes?

segunda-feira, 19 de março de 2012

Não é convencimento


Se te falo esses termos não é pra te convencer, mudar sua ideia de agora ou lhe forçar a qualquer coisa que seja. Não é convencimento o que articulo, é atenção. Permito-me dizer que é amor. Se insisto nesses termos não é pra que lhe faça sentir mal, mas pra que possamos sentir cada dia mais bem. Perceba: é coisa que me faz ficar assim olhando meio de lado, pra lado algum. Mas não posso ser com você indiferente. Não posso ser comigo indiferente. Se te peço atenção, é óbvio a falta que me faz. Se insisto pela sua presença, é porque com sua ausência (mais presente) está difícil conviver. Tá, não é um sufocamento, mas também não sei se é paixão que brasa ainda queima. Não pensou que este mês em especial eu precisaria de um pouco mais de atenção? Poderia entender a razão? Estando ao meu lado saberá pelos meus olhos. 

sábado, 17 de março de 2012

Regadores pra olhos secos


Esses meus olhos secos precisam ser regados. Busco regadores pra olhos secos. Secos como o chão do nordeste, como o fundo dum rio quando esse está seco. Secos como a indiferença de pessoas. Tão secos quanto um funcionário público, com suas vestes de terno e gravata, que não faz justiça e se resguarda - covardemente - atrás de uma escrivaninha planejada. É aquela sensação de quase, sabe? Os olhos marejam, a garganta seca, e mesmo só numa sala a meia luz eles não se regam. Essas aparências enganam a mim mesmo e nada mais. Os sentimentos que umidecem - mas não molham - meus olhos não são confusos. São talvez incompletos ou constituidos por incompletudes. São partes de tudo que não se realizou, ou cacos ainda do que se formou em minha vida com minha vontade ou à revelia da mesma. Mas não vejo confusão alguma. Estou certo sobre como tenho caminhado. Faltam-me apenas regadores o suficiente pra tolerar toda essa realidade de cada dia que vejo quando abro meus olhos secos. 

quarta-feira, 7 de março de 2012

Professor e aluno


Certa vez um estudante deu como quem dá de ombros e foi embora. A desculpa a que ele se apegou fora a demora do professor em começar a apresentação da aula do dia: o professor estava com problemas no seu computador. Me lembro que, quando aluno, sempre que um professor demonstrava problemas eu me oferecia para ajudar. Em retribuição ao que ele me ensinaria, eu dava uma verdadeira aula sobre como ser paciente e resolver problemas inesperados, ser equilibrado e compreensivo. Ambos aprendíamos. E eu aproveitava a oportunidade de me firmar enquanto ser humano num espaço em que eu me colocara, um espaço que é de troca. Foi ali que aprendi a ser um bom aluno.

Certa vez uma professora demorou para começar sua aula porque o filme que iria exibir não começava. E nunca teve começo. Após a pane, os alunos sentaram mais próximos daquela professora, cuja voz já falseava pela idade, e puseram-se a ouvir o que tinha a dizer aquela figura julgada ultrapassada pela turma. Foi uma das aulas que mais me emocionaram. Fugimos ao tema, falamos de experiências e fizemos troca. Percebi que ideias novas eu não tinha; para todas era possível buscar alguma referência no passado que tão delicadamente foi-nos trazido ao presente naquela aula. E percebi - com mais dor - que os sentimentos que tinha eram exatamente os mesmos que carregava aquela mulher. Foi ali que pensei em ser professor.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Acusado de amor

Volta e meia me acusam de amor. Dizem que namoro de muito tempo é enrolação. Como podem? São pessoas cinzas, que vestem preto e desamadas que dizem isso. Dura tanto justamente porque se ama. As fases que passamos são estigmatizadas: namoro tem que durar pouco, casamento tem que durar muito. Depois, quando as brigas acontecem e os casamentos terminam, nada se fala! E logo eles, que deveriam ser pra sempre. Já o namoro, ensaio daquilo que é amar, é quando se passa da paixão para aquilo que atrevo, com pudor, dizer "o nascimento de amar". O casamento não começa quando se casa: eis aqui o ato de conhecer ao outro, aprender o respeito, apego, a tolerância, cumplicidade... e se passar o tempo necessário para um ser parte do outro. Não apresso, velho que sou, o namoro. Parte que mais me marcou, ato que mais fundamenta o passo seguinte que, por desejo de todos e da igreja, ninguém pode desunir. Mas me acusam de amor. Aos acusadores, as dores. Aos namorados, minha eterna admiração: que lindo são!