Há uma estranha aproximação em todos os finais de ano. Dois entes que se aproximam, se tocam, se beijam, e não se veem mais. Aquele que se aproxima é sempre um desconhecido. Traz, às vezes, expectativas sobre ele - boas e ruins - mas sempre é desconhecido. E acostumamos a nos entregar a ele de forma calourosa, vibrante. Àquele que se afasta, agradecemos e mantemos ele presente em nossas fotografias e memória. Duas presenças assustadoras pra mim. Não tenho de nenhum concretude, mas sempre sonhos, esperanças ou memórias e fotografias. Ambos coexistem, mas não se tocam. Há um momento no qual eles se olham, se aproximam, tenho certeza que se tocam e, da mesma forma fugaz, se afastam, ainda se olhando, com o que sobrou de molhado do beijo que trocaram por formalidade. As luzes acesas, o barulho de rojão, o álcool no sangue das pessoas, o olhar curioso da criança, a comida pesada no estômago e a presença de pessoas queridas ao nosso entorno. Esses dois caras observam tudo isso. Ambos podem nos trazer novas presenças cada qual da sua maneira: ou pela memória do ente passado de pessoas queridas que amamos e que se foram, ou pela força do ciclo que renova nossa humanidade. Ambos trazem dor e alegria, ambas emoções se misturam e formam aquilo que de mais essencial e exclusivo há em todo o universo: a vida humana. Prazer em conhecê-lo, ano novo.
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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017
Prazer em conhecê-lo
Há uma estranha aproximação em todos os finais de ano. Dois entes que se aproximam, se tocam, se beijam, e não se veem mais. Aquele que se aproxima é sempre um desconhecido. Traz, às vezes, expectativas sobre ele - boas e ruins - mas sempre é desconhecido. E acostumamos a nos entregar a ele de forma calourosa, vibrante. Àquele que se afasta, agradecemos e mantemos ele presente em nossas fotografias e memória. Duas presenças assustadoras pra mim. Não tenho de nenhum concretude, mas sempre sonhos, esperanças ou memórias e fotografias. Ambos coexistem, mas não se tocam. Há um momento no qual eles se olham, se aproximam, tenho certeza que se tocam e, da mesma forma fugaz, se afastam, ainda se olhando, com o que sobrou de molhado do beijo que trocaram por formalidade. As luzes acesas, o barulho de rojão, o álcool no sangue das pessoas, o olhar curioso da criança, a comida pesada no estômago e a presença de pessoas queridas ao nosso entorno. Esses dois caras observam tudo isso. Ambos podem nos trazer novas presenças cada qual da sua maneira: ou pela memória do ente passado de pessoas queridas que amamos e que se foram, ou pela força do ciclo que renova nossa humanidade. Ambos trazem dor e alegria, ambas emoções se misturam e formam aquilo que de mais essencial e exclusivo há em todo o universo: a vida humana. Prazer em conhecê-lo, ano novo.
quinta-feira, 14 de maio de 2015
Teimosia
É que acontece isso todo dia, de o Sol sair. Às vezes a gente dorme como se não fosse existir amanhã, com a certeza do próximo dia não acontecer. Em tempos assim se deseja que o dia vivido fosse apagado, mas seria o mesmo que desejar que o Sol não nascesse. Então a gente tenta aprender com eles: tanto com o dia vivido quanto com a teimosia do Sol. Chega verão todo mundo reclama do calor. Chega o frio e o culpado é ele novamente, por estar desta vez muito distante. E nessa ida e vinda a gente nem nota o tempo passando. Às vezes a gente vive e não percebe, encontra-se no fim. Em tempos assim se deseja ter mais um dia para se viver.
domingo, 21 de dezembro de 2014
Neste último mês
Uma música não me sai da cabeça. Posso dizer que ela conta essa imagem: árvore velha, caída, derrubada por um vento forte ou um raio em um dia escuro. Esses dias fui até lá, sem saber da sua existência, e a fotografei. Pude notar suas marcas abaixo da casca, já ressecada, caída. Aquele galho estava nu. Dizer que mostrava sensualidade por não vestir suas roupas não seria adequado. Mas era como um espelho revisitado 33 anos depois. Olhar para troncos assim tem me mostrado coisas passadas e amadurecidas sem necessariamente me inspirar confiança ou segurança. Não sei se é coisa de signo ou ascendente, mas nasci para ver. Contar sobre isso foi acaso. Mostrar tem sido escolha. E embora eu possa falar e falar e falar quando com sono, tenho sido desmedidamente seletivo para apontar e escolher em quanto tempo lhe mostrar alguma coisa. Este último mês foi como um piscar de olhos.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Ó tempo tão desigual
Sinceramente esperava mais saculejos ao longo da vida. Até os 30 foi tudo muito tranquilo, calmo, demasiadamente calmo. Um ou outro baque, mas normais, coisas da vida. Alguns aprendizados, algumas notícias razoáveis aqui, outras pessoas indo embora ali, cada qual com um destino e um tipo de passagem diferentes. Tá tudo tão igual, mas uma observação tem me tirado a vontade de café: o tempo tem passado diferente conforme sua vaidade. Voa quando peço calma, não passa quando preciso dele como remédio. Às vezes sou capaz de jurar que ele fica ali, na esquina, me observando enquanto tenta relaxadamente se esconder atrás do fino poste de endereços. Nessa brincadeira sou eu quem sempre levo a rasteira. Ele me deu possibilidades, oportunidades, até afeto - me arrisco a dizer. Mas é tão desigual! O que deveria parecer uma aventura fica assim num sentimento de quase angústia. Agora, por exemplo, ele voa.
sexta-feira, 23 de março de 2012
Meus Velhos Costumes
Acordo mais cedo com uma lembrança que beira meus velhos costumes. Volto a dormir para rememorar tais costumes e tirar algumas satisfações que, pelo jeito, ainda me roubam a calmaria de uma noite fria. Foi em vão. Repetiu-se a mesma ausência de quando em determinado momento você se foi. Pra mim era tudo assunto resolvido, acabado. Havia seguido, assim como sei que você seguiu seu caminho. Um pé de amora surge em meu caminho. Subo em seus galhos que vergam horrores e apanho algumas poucas maduras. Percebo um receio de manchar a roupa branca. Lembranças confusas sobre fatos, pra mim, mal acabados. Se pudesse dizer o que isso representa hoje acho que seria um punhado de fotografias amareladas, com certa fragrância que (me lembro) de manhã preenchia meus sonhos enquanto andava com uma velha calça de moletom na qual eu inteiro cabia dentro. Como posso esquecer dos costumes?
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Reencontro
Depois de muito tempo ele foi ao reencontro dela. A espera na chamada telefônica, o "pode passar" que, ligeiramente, soou ter um sentido contrário. Os cruzamentos, as ruas, a procura pelo número da casa e a indicação de referência: "a casa verde na esquina". Acontecem os segundos atemporais, marcados pelas batidas do coração num frenético pulsar. O lapso de tempo é rompido. À primeira vista, o sorriso leve; logo depois o abraço delicado, a falta de paixão no contato por ela. Ele a repreende em ato, puxa seu corpo novamente contra o seu no instante em que um afastamento se anuncia. Ela cede e mais firmemente entrelaça os braços. Pouca coisa. Ele silencia, busca sentir e entender se o tempo dela também está contato pelo órgão que trabalha em virtude de uma paixão. Eles entram, tomam café. Mais gente se aproxima para cumprimentá-lo, sempre demasiadamente educados, demasiadamente amáveis e demasiadamente distanciados de uma vivência que não aconteceu. Então ele se sente querido, e pede baixinho para que o próximo lapso sirva, enfim, para aproximá-los definitivamente.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Seu sorriso
Desde aquele primeiro sorriso seu o tempo continua sua sina: correr ora vagarozamente ora demasiadamente acelerado. Em ambas situações, às vezes, cruzo com um motivo ou outro que me traz aquele instante belo para diante dos meus olhos, como se fosse um passe de mágica. Mas eu não sou mágico, então quero que saiba que não há magia nesses instantes, apenas saudade. É como se você estivesse ali, na minha frente novamente. Eu não sinto nada além de uma calma saudade, que se instaura sem pressa e toma forma bem definida, que fica estampado no meu olhar brilhoso cheio dáguas e no sorriso meu sem jeito que ninguém percebe. E se perguntam: "porque você está quieto?", nas raras vezes que me entrego, eu nego. Explicar levaria muito tempo, e já que ninguém saberia reconhecer seu sorriso - nem atribuir o mesmo sentimento que somente eu sou capaz - então prefiro me esquivar. Seu sorriso continua presente em mim, mas agora na boca de outra pessoa.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Desafio de luz
A fotógrafa e o artista travam uma batalha. Conseguirá ela, ao final dos seus modernos e quase infindáveis cliques digitais, conseguir captar aquela luz, tão exata como a de milhares de anos atrás, que o artista pensa em emanar? Pois sim, se o artista chega à alguém, o faz pela luz. E, se tal artista assim desejar, até posar é previsível. Porém, o previsível é produto barato, de nada tem valor, quer ela, aquela que quer aprisionar raios de luz, justo o oposto, aquilo que não se tem simples assim. Procura sempre o diferente do igual, sendo que este, diferentemente se si próprio, se forma justamente a partir do seu contrário. Da próxima vez, eles combinaram: ele, o artista, será previsivelmente imprevisível; ela, a captadora de luz, será rápida mais quase que a própria luz, será um segundo dividido por centésimos mais depressa. Com essa esperteza toda, espera ela prender, eternizar. Mas, para o público, eternizado fica o que não é por objetiva dela captado. Eternizado fica somente aquilo que pelo coração é guardado, que pelos olhos são turvados pelas lágrimas e que pelos ouvidos são transformados em imagens. O público lembrará é do cheiro, do som que orienta e distrai, da imagem quase apagada que é obrigado a completar com seu repertório de carinho e encantamento, se houver.
terça-feira, 3 de maio de 2011
Das coisas que faço quando estou em casa
Levanto e ando 10 passos, distância do sofá até minha cozinha. O armário sobre a pia guarda um pequeno pote de capuccinno; ao seu lado, um saco de café solúvel granulado. Me viro, abro a geladeira, e confiro se há leite. Não há, há tempo não compro. Pego, então, a caneca e encho de água. Passo-a para uma caneca de metal que vai ao fogão. Não gosto de microondas. Esquento, sem deixar ferver. Três colheres de pó de capuccinno na caneca, despejo, lentamente, a água, enquanto mexo-a com a outra mão para dissolvê-lo. Terminado, ficou espumoso. É desses prontos, que já colocam espuma misturado ao pó. Aperto o pregador de roupas que lacra o saco de café solúvel granulado e solto-o da embalagem. Ele mantém o café granulado fresquinho, livre da ação do ar. Meio que polvilho sobre o capuccinno. Ele não afunda. Faço um balanço assim, com a caneca, para que uma movimentação circular do líquido aconteça dentro da caneca. O granulado em pó, então, se desfaz, mas continua heterogêneo. É aqui que conversamos. O granulado forma formas sobre a espuma. Eu formo meus pensamentos e os dissolvos na boca a cada pequeno trago.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
A hora do tempo
Há uma coisa engraçada sobre o tempo: pensamos que ele passa, mas somos nós que passamos por ele. E em poucos momentos percebemos isso. Ali sentado observo, enquanto queimo suavemente minha língua com o capuccino recém preparado, quem entra, quem sai, quem passa de carro, a pé, de ônibus e o vento que mexe - às vezes brutalmente - as árvores e coqueiros lá fora. Fica clara a passagem. Mais clara ainda a velocidade disso. O tempo, convenção humana, não existe. E por relativo, o que representa o tempo humano comparado ao tempo de uma estrela, dessas que mal notamos no céu? O tempo tem sua hora não marcada por relógios. Eu o marco pelo meu capuccino, que me leva pra depois da minha conscicência e percepção estabelecidas pela ciência.
Imagem de Cristiane Fontinha
Imagem de Cristiane Fontinha
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Para um brilho mais brilhante
Brilho porque eu não me faço do outro. Sou, para você, duas formas diferentes: brilho a partir do meu eu mas também sou brilhada, e isso acontece quando alguma coisa me mudou da origem. Você, por exemplo, me muda quando em você eu toco, e ai eu vou brilhar em outro lugar. Na verdade, brilho no caminho pois não tenho casa. Meu brilho é durante o ir-se, tendo destino trombar com algo e ir, novamente, brilhando por ai, me espalhando pelos que me aceitam de pouquinho em pouquinho. Acontece que você me nota quando olha para o vidro do carro em dia de chuva. E me vê redonda, toda fora da dieta. Percebe, então, que o vidro me pára... será? Quantos tipos de vidro tens seu coração e sua alma, que me pára mesmo sem chuva? Não se leve pelo seu olhar... me vistes ali, redonda, no vidro e pensa que ali eu fico. Não percebe que mesmo sem sua abertura eu lhe toco; é quando volto mais ou fico mais em você. O quanto? Depende da sua essência.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Entre um e outro, no meio de todos
Ali, enquanto esperava, procurei outro livro que me interessasse. Entre a prateleira Matemática e Direito Jurídico, entre um e outro, no meio de todos, estava eu. Senti vontade de sentar, como se para absorver aquela leitura toda que jamais farei. Lembrei disso. Não vai dar tempo, nem que tente, ler todos e todos esse livros. Naquele momento me decidi por não ler nenhum. Ficar ali, olhando, folheando, tentando não permitir que eu lesse e reconhecesse todos os sígnos e simbolos linguísticos. Queria que fosse em latin, ou outra língua desconhecida para mim. Queria apenas o sentimento da leitura, o conhecimento de que ali coisas importantes existem, mas não queria saber o que são. Queria neutralizar qualquer tipo de pensamento, como o apaixonado que sente dor, febre e que não sabe o porquê. Queria apenas sentir que havia ali algo que valesse a pena ser lido. Lembrei de um pedaço de missa em latin que assisti. Fiquei pensando que ali, naquelas poucas palavras que eu não compreendia, existia algo que valesse a pena nos homens.
domingo, 24 de outubro de 2010
É do lado de dentro que vejo pelo lado de fora
Daqui, preso aqui dentro, só posso imaginar a minha cara vista dali, do canto da sala, ao lado do aparelho de televisão. Cara de quem nem se lembra o que comeu. Cara de quem ainda tem fome e que não tem comida o suficiente. Ah, se dali pudesse olhar, acenar e dizer em voz alta tudo o que penso e sinto! Faria ali, do lado de fora, essa cara também pelo lado de dentro. Meu reflexo não é mais daquilo que fico aqui, imaginando. Sou a voz que registra o que vejo sem ao menos ser autorizada pelo meu próprio eu. Eu, a voz, que vos falo, faço aqui uma nota sobre meu rosto: se vocês pudessem ver como ele estava a pouco! Não é sono, tristeza, monotonia, nada disso. É uma cara dessas que nos pegamos de vez em quando. É o reflexo que só se vê pelo lado de fora e que existe somente aqui do lado de dentro. Complexo? Não, é reflexo puro. Daqui do lado de dentro vejo tudo como acontece do lado de fora. Mas só vejo. Ainda não sei me desprender e caminhar entre tantos lados meus.
Imagem de Nunes de Freitas. Conheça mais em seu Olhares.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Terça-feira, 19
Tomo meu café como quem acende um cigarro. Na cabeça, movimentando-se com os dedos, os pensamentos mais clichês para o dia seguinte. Antes, chego em casa. Tomo meu banho, pego meu beber e comer. Ensaio deitar, cumpro com responsabilidades para o dia seguinte. Amanha, quarta, quero voltar pra casa, trocar de roupa, caminhar. Na volta, pão quente da padaria. Banho. Mais TV, pra sair da normalidade absurda de todo dia. Nada de jornal, pra não ver absurdidades; pensá-las já deixei há certo tempo. De noite, fizer noite como de hoje, contarei as estrelas. Tentarei. E me sentirei, novamente, sozinho. Saudade do princepizinho, e dos campos de trigo, não porque lembrarão seus cabelinhos loiros, mas porque lembrarei da minha cidade natal, toda cercada de trigo no inverno. O vento e o barulho dos caxinhos secos do trigo, já no final para colheita. Então eu entro. Fecho os olhos, mas as estrelas continuarão lá, sabe porquê? Por que elas não estão no céu. Elas tão no coração que, uma vez aberto, empresta seu espaço para guardá-las. E o meu é dum tamanho que ainda não deu pra contar.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Jardineiro do universo
O rastelo é a desculpa que o jardineiro usa pra riscar a terra e reorganizar o chão. É com ele - e com suas botas de borracha - que tudo fica novamente em ordem, na ordem que se quer. É, antes de tudo, atitude egoísta: o solo todo arrumado fica como o coração do jardineiro, na medida exata do seu Ser. Como sempre tem um "mas", o nosso se refere à boa fé e trato para com aquilo que queremos ver refletido. A arrumação da natureza serve como metáfora para nossa própria organização, assim como sua harmonia no ambiente refaz nossa paz interior em nosso contexto exterior. Fato é que meu jardineiro do universo ainda não sabe disso tudo. Um dia vai saber; por hora, ele rastela e vê tudo ficando arrumadinho. Mas o faz, especialmente, pois quem o faz junto leva-o de mãos dadas para um canto da saudade, cantinho jamais ocupado pelo esquecimento. Se hoje são os jovens que adormecem, amanhã - você verá - as crianças sobrarão em amor por todos os cantos de cima da nossa terra.
domingo, 3 de outubro de 2010
Sobre o tempo
Precisei desligar o som. Queria silêncio. Preciso de algumas coisas por hora: silêncio é uma delas. A outra é tempo. Não o tempo que nos falta, mas o que nos sobra. Precisar de tempo e de silêncio é como viajar em uma leitura que, quando se acaba, já se tem saudade. Tenho vários projetos que sinto falta não realizar. Um desses é algum em fotografia, que tenho minha maior intimidade entre as coisas que faço para viver. Estar "sem tempo" é ouvir música enquanto se lê, com um copo de refrigerante no pé do sofá e uma taça de sorvete ao lado, no braço. É ter a TV ligada e o PC baixando músicas, filmes, próteses imaginárias da rasa consciência. É fazer tudo ao mesmo tempo. Já "ter tempo" - e é assim como procuro - é desligar tudo, até a luz. Velas pela casa, um livro com cheiro de estante, um incenso de queima lenta. A sorte dum corredor de vento nesse início de primavera, um copo de capuccinno esquentado no fogão, devagarinho, e a saudade como companhia. Arco com as responsabilidades proteladas também no amanhã.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Onisciência durante um café
Também tenho isso de estar em todo o Tempo. Me acordo velho, passo dia moço, e não quero me deitar, menino que sou, quero continuar na TV. A ordem varia, muda toda manhã, toda tarde, toda noite. Mas sempre estou ali, menino, velho, moço, sem importar a ordem. No café, me vejo no reflexo do vidro, logo ao lado, eu com copo à boca. Mas ali fora, já na mais idade, também sou eu a ver-me dentro menino que estou, segurando uma xicara quente, com o cuidado que aprendi. Pra ti também quero me dar assim, sem ordem, mas na necessidade que você tiver. Menino pra brincar, moço pra te dar segurança e velho para segurar sua mão qdo tiver fraqueza. Sem ordem pra passar o dia, ou mesmo a hora. Sou assim desde pequeneninho, já acordei com uma xícara desse pensamento à mão. E sabe que gosto? Meu café esfria de tanto abrir o olho para fora. Mas lá, do lado de fora, o senhor que se apressa aquece meu coração jovem, mostrando que a vida que corre. E insinua que é depressa demais pra eu não cavalgá-la.
sábado, 10 de abril de 2010
É no nascer do sol que se põe certas inquietações
Começa sempre com os passarinhos cantando, mas quando se está com muito sono não se escuta. E então se acorda antes mesmo do despertador mas aquele rosto lindo, quentinho de sono, diz que não se dormiu. E você diz que dormiu sim, querendo mostrar uma responsabilidade que sequer pensa ter. Na verdade só se quer ficar ali, abraçado no frio, encolhido, braços cruzados pra esquentar, mangas esticadas pra esconder as mãos, esquentando um pedaço de sono atrasado. Mas, com pressa de viver, sai depressa, esquecendo que já se vive. Então o sol nasce, bem devagar, no horizonte, e aumenta a certeza de que algumas coisas a gente vai deixando pra trás. E pensa se aquilo poderia ser sempre, mas se sabe que nunca mais pode ser igual, porque as coisas não se fazem de novo. E desde já me dá saudade, e desde já vira pensamento que o coração não compreende. E desde sempre fui assim.
*imagem tirada durante um passeio fotográfico na represa de Rio Preto. Mais imagens em: vistasantiago.blogspot.com
terça-feira, 6 de abril de 2010
Pessoas mais quentes em dias assim
Num tempo como este se encontram dois amantes, transgride um adolescente, recai um bêbado em algum canto só. Em todos os casos acompanhava o frio, sinal de um pleno outono sem planos ainda para qualquer outra coisa. Sei que eu quero estar junto a ti, mas se não me vem o amor do oposto, aqui eu tomo a segunda taça sozinho. O vinho é bom, leve, cabernet, me lembra chocolate com passas. Me lembra nossa primeira taça juntos, o seu primeiro gole e, talvez, ainda não sei, minha última vontade de estar contigo. Mais um trago. Me falha a memória. Não lembro mais o ponto de servir, o tempo de repouso antes do primeiro gole, nem mesmo o tempo de repouso antes do primeiro beijo. Acho que não deveria existir. E por isso trago o beijo antes mesmo da vontade, mecanicamente. Mas isto talvez seja a vontade, não o beijo.
domingo, 13 de setembro de 2009
O SENTIDO DAS COISAS
Já vi a razão das coisas. Queijo sem goiabada, o leite sem a nata, as coisas perdem-se na falta da outra parte que as dão razão. Igual que nem como mangueira d´água aberta e criança, eu sou com minhas observações. Não que eu pretenda ser pretencioso, nem que eu queria que se queira a outra parte por inteira. Mas é que é assim. E queria contar a última.Que não se engane, o senhor que detém certo poder, nem que se jure feliz quem a um outro amor compartilha do seu próprio. Muito menos aquele que se retém nos sentimentos, ou que não os exprime por não o saber. Que fique longe o que chora baixinho e não deixa suas lágrimas fazerem barulho, que não veja o que cega-se por um amor inútil. Que não fale à mesa do vinho, nem se embriague da solidão que nos endureçe o coração.
Eu vi que se fecha a quem se abre. Sei também que se abre onde estava fechado. E se você não quer vinho, nem mesmo um cafézinho, que se queira ter ao menos onde assim se sinta feliz. Queria que tal parte oposta se sinta agradecida, pois que suas noites melhorarão ao lembrar um mero olhar piscado. Que se tal carinho foi demasiado breve, na simplitude duma espera ele carrega uma esperança. Igual que nem como mangueira d´água aberta sem criança.
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