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segunda-feira, 20 de setembro de 2021
Alma passadeira
terça-feira, 16 de maio de 2017
Te pegarei no colo
A Lua é minha bolinha de gude. Também é minha bola de capotão, minha bexiga voadora amarrada num graveto. De todas as brincadeiras ela é a mais gostosa: acaba só quando começa o dia. Criança ao contrário que sempre fui, me despeço do sono para ficar ali, olhando para ela. Já o Sol ilumina tudo, mas é tanto brilho que não se pode olhar em seus olhos ou brincar escondido no seu barulho diurno. Já a Lua revela baixinho todos os seus segredos e nos faz construir os nossos próprios para guardar em seu silêncio noturno. Enquanto ela é cúmplice, o Sol é dedo-duro, não deixa a gente esconder nossas brincadeiras por mera travessura. E ele brincará só por isso. Te pegarei no colo um dia, Lua linda.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Das coisas que não podem ser
Foi por acaso que parei naquele lugar. Fiz meu pedido e em pouco tempo notei você ali, com seus pais. Enquanto você sorria e falava coisas sobre ter comido bastante certo dia, eu pensava no sinal vermelho que eu havia acabado de atravessar, arrependido por tão boba infração de trânsito. Fez-se, logo, mais tempo que parei para olhar seu rosto: traços tão suaves, pele branca e macia, o corpo hermético, os olhos azuis, o cabelo loiro e liso. Faz pouco tempo que desviei meus pensamentos e comecei a pensar na possibilidade de tantos sorrisos serem pra mim, alguns das piadas bobas que contaria cotidianamente; outros, das besteiras que eu talvez faria para te ver sorrir e escutar essa voz um tanto quanto incômoda. Imaginei todas as possibilidade daquilo ali sair do acaso e se tornar nosso caso. De todas as imaginações possíveis, nenhuma fora viável: pedir um telefone, fazer uma declaração, mandar um bilhetinho. Sério? E foi assim que você se foi. Sem a possibilidade de ser, você se tornou mais uma das coisas que não podem ser. Paguei a conta e fui embora pensando nestas impossibilidades.
domingo, 27 de abril de 2014
O segredo de quando nos falamos pela primeira vez
Aquele sorriso forte no rosto, os olhos tão abertos, os cabelos agitados. Sua voz, alta, tão nova para mim. Ainda apreendo seus traços... a sobrancelha simétrica, os orelhas escondidas pelo seu cabelo liso. Aqueles seus toques ocasionais em minha perna - e eu torcendo por mais deles. Os assunto se sucedem, falamos de nós, de coisas que estão mais próximas. Uma pergunta inesperada e é preciso buscar mais distante a resposta. Mas ela vem. E quando a ironia chega mais depressa, ou causa certo espanto, sua mão repousa por um pouco mais de tempo em minhas pernas - e eu torcendo para ela parar ali. O riso vem largo, nossas cabeças se inclinam para frente, ficamos pela primeira vez mais próximos do que nunca. Aprendi a saber a hora exata de falar um pouco mais baixo e forçá-la a se aproximar. Fiz parecer que o assunto era como a senha secreta de um tesouro perdido e você se aproximou para ouvir - e eu torci para que viesse mais perto do que realmente veio. Foi a segunda vez que senti seu perfume naquele dia. Não nos afastamos mais depois que o segredo fora revelado - e eu pensava como inventar um outro ainda maior. São os segredos que trazem os corações para perto.
*img da Sarina Lopes.
terça-feira, 1 de abril de 2014
Aquela menina
Estava sempre sorrindo, intermediando conflitos, trazendo paz. Os cabelos longos, o sorriso aberto, o aparelho nos dentes, a perna grossa, outro sorriso. Aquele olhar de quem vai fazer algo correto, hoje, traz boa saudade. Foi há longo tempo. Caíram muitas árvores, construíram novos quarteirões, ela mudou de cidade, de Estado. Cresceu. Cresci também. Mas quando o menino traz essas lembranças inesperadas ao velho elas vem bem-vindas, embora tragam overdose de melancolia. O remédio é o tempo. Aquela menina não sabe, mas há muito não vivido nesse lapso temporal. Aquela menina, hoje, me visitou. E trouxe novidades: eu soube que está indo e fico muito feliz por isso.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
O abraço não dado
De todos os meus abraços, o mais forte foi aquele não dado e, no entanto, é dos mais presentes na minha alma. Ele impregna dentro do espírito e não sai nas trocas de roupa. Ele tem demonstrado que mais forte que o entrelaçar de braços é o encontro das almas. E que não importa o quanto se aproxime ou se afaste novamente, ele permanecerá ali, presente. Em sua ausência ele é substituído por tantas outras coisas: expectativas, lembranças que culminam no não abraço, tempos convividos em comunhão e mesmo por aquele olhar duro, carregado de sorrisos posteriores que afagam o pior dos dias e das noite. Emprestar os ombros não substitui esse abraço não sentido, esse calor não trocado nem os pés não pisados pela ansiedade do encontro dos corpos, apenas reforça ainda mais essa falta. É uma falta que ignora sua natureza, pois se faz mais real e presente que tantas coisas ao nosso redor. E se abraçar o próprio corpo for uma forma de trocar esses sentimentos não vividos, que o melhor exemplo seja dado durante o banho: local de presença forte daquilo que falta e falta daquilo que ficou no anseio. É hora de lavar não o corpo, mas as sensações e desejos que impedem esse abraço não vivido.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Primeiro Encontro
Distante, ela sorri. Próximo, ela retribui mais uma vez o sorriso. Ele pensa o significado de um sorriso. Conclui que um sorriso é um sinal de aprovação ou ao menos algo que o valha. Ele se aproxima e invade aquele espaço mínimo que todos têm, o limite no qual, se ultrapassado, ficamos sem jeito. Passa então a mão pelas suas costas e sente um leve afastar. Não pergunta o nome dela e solta algumas palavras ao pé do ouvido que serão mal compreendidas. - "Você tem um sorriso bonito. Será que eu poderia mantê-lo em seu rosto depois que sairmos daqui?". Educadamente, ela responde que já está sorrindo ali. Ele consente, mas abre que ali ele sabe que ela está sorrindo, e que havia dito se depois daquele momento ele poderia manter aquele sorriso. "Eu namoro", ela diz. Ele oferece então um café, e deixa claro que quando se namora e se sorri assim, talvez, seja um momento no qual se pode dividir experiência, carinhos e afetos, criar quem sabe laços de amizades. Ele não quer perder aquele sorriso. Mesmo depois da última tentativa, ela se eleva a um status alto de popularidade argumentando que, caso vissem-na com outro em algum ponto daquela grande cidade, poderia ser mal interpretada. Ele se afasta sem lembrar da última palavra que havia dito. Apesar da contradição dos sinais e intenções dela, ele leva a boa impressão deixada pela educação com que ela lhe falava.
*inicio com este texto a Série "Encontro", sobre encontros não vividos, mas que seriam possiveis existir. E, caso seja um encontro que tenha realmente acontecido com você, leitor, compartilhe!
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