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domingo, 12 de abril de 2015

Minhas janelas pueris


Tenho tido saudades que mantenho guardadas a 7 chaves: comer aquele bolo quentinho na casa da amiga, sentar na calçada com um velho violão desafinado, tocar aquela campainha velha sem ter a certeza dela ter sido escutada, sonhar - e apenas ter que fazer isto - com o que se vai fazer no futuro, atender a porta ouvindo alguém te gritar pelo nome. São minhas janelas da infância e adolescência abertas para o infinito.

Tempo passado, congelado - dizem - como em uma fotografia. A verdade é que foi eternizado e como tal já não sai mais daqui de dentro. Pra sempre me leva, por mais que seja eu quem o carregue. E minhas escolhas? Antes elas eram seletivas e me davam uma direção; hoje são lembranças que me tomam subitamente e que me mostram as decisões que tomei. São um trago pra uma mente que quer viver tantas vivas quanto possíveis e que nelas enxergam todo um outro universo não vivido. Dá saudade tudo isso.

sábado, 13 de setembro de 2014

Já somos outros


É sobre ver todas aquelas pessoas novamente quinze anos depois. Elas ainda lá, na pequena cidade, trombando contigo da mesma forma, ao acaso. Sempre me pergunto se elas ainda se lembram de mim, se me reconhecem, se sabem meu nome. Noto que os rostos são quase que outros. Em sua maioria, cansados, tristes, como os meus devem estar. A rua mais vazia, as árvores também morrendo (percebi que na cidade elas duram menos), as coisas fora de lugar. Tudo parece fotografia manipulada. O tempo, que deveria ser bom, tem machucado. As aventuras não tem sido inesquecíveis e minhas decisões, arriscadas, têm me cobrado muito durante o sono. Dois anos depois, o menino se esconde novamente. Deve estar trepado em alguma jabuticabeira cuspindo o caroço na minha própria cabeça.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Aquela menina


Estava sempre sorrindo, intermediando conflitos, trazendo paz. Os cabelos longos, o sorriso aberto, o aparelho nos dentes, a perna grossa, outro sorriso. Aquele olhar de quem vai fazer algo correto, hoje, traz boa saudade. Foi há longo tempo. Caíram muitas árvores, construíram novos quarteirões, ela mudou de cidade, de Estado. Cresceu. Cresci também. Mas quando o menino traz essas lembranças inesperadas ao velho elas vem bem-vindas, embora tragam overdose de melancolia. O remédio é o tempo. Aquela menina não sabe, mas há muito não vivido nesse lapso temporal. Aquela menina, hoje, me visitou. E trouxe novidades: eu soube que está indo e fico muito feliz por isso.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Desse tempo que acordei com saudade


Era um tempo desse que se refazia aqui dentro. Tempo de chuva, mas tempo de alegria. Tempo de brincadeiras com o que a vida dava de graça e que não precisava ligar na tomada. Com sorrisos que  vinham de cabelos molhados de suor - de tanto correr. A saudade da infância é um pouco de tudo e de tempos em tempos vem me revisitar. E não importa se chove forte nos olhos ou se pinga longe no mar essa água salgada: ela insiste em bater nas vistas. Se exibe holiudianamente e se reprime, some. Por vezes vou até a padaria buscar essa infância e a pego comendo uma bomba de chocolate enorme. Há outros indícios: água no chão do banheiro, talheres e louças sujas na pia, meia enfiada dentro do tênis, televisão desprogramada e som alto, além de todos os tapetes sujos e do chão da casa inteira cheio de terra roxa. Roxo, aliás, estão as pernas e braços, além de arranhados. Mas roxo mesmo fica a saudade, que bate forte tem dia.

foto: Crianças de Campo Alegre do Fidalgo, sertão do Piaui, durante a chuva que marcou a chegada do "inverno" de lá, em janeiro de 2013 

domingo, 18 de novembro de 2012

Salada de professores


Às vezes, pra quebrar a rotina, fazíamos festinhas caretas na sala de aula. Era o finalzinho do Ensino Fundamental, mas lembro-me que mantivemos essas atividades também no Ensino Médio. Uma dessas festas era de Salada de Fruta: um vinha com a banana, outro com a uva, maçã, pera... e, quando montávamos tudo numa bacia de alumínio da cozinha da escola, estava ali nossa salada. E que salada. Não digo gostosa, já que tenho minhas predileções: não gosto de uva com semente, nem maçã com casca, também prefiro a salada regada com tubaína e não com suco de laranja. E jamais com creme de leite ou leite condensado. Mas hoje gosto mais da salada de fruta que me traz um breve tempo do passado pra mais perto, pro meu presente. Me lembro, antes de tudo e de todos, do professor Luís Carlos, de Geografia. Um homem sério em sala. Palavras bem colocadas e bem entonadas. Mas lições que não me esqueço: humildade, sabedoria... coisas que, quando adolescente, nos fechamos para reconhecer nos outros. Relembrando carinhosamente essas aulas, hoje encontro grande passos metodológicos em suas palavras. Devaneios que passeavam pelos diversos tipos de conhecimentos e materializações deles derivadas. Sobre a salada de fruta, fizemos, certa vez, em sua aula. Me lembro que falávamos que não era atraente o fato da maçã e da banana amarelarem. Ele sorriu, e então nos ensinou um segredo para que isso não acontecesse. Luís Carlos já se foi. Há uns 8, 10 anos. Mas eu, ao usar desse segredo agora há pouco, o trouxe bem vivo um pouco mais pra perto dessa distância toda.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Será sempre saudade


Ter na lembrança esse pedaço de você é a certeza que será sempre saudade. É mais carne no meu peito do que pensamento ou desejo. E saudade não passa. Daqui certo tempo quero te olhar, encarar, e assim como sempre esconder meus desejos vicerais. Te dou aquilo que é metafórico com medo de sermos iguais. Seus sussurros são sempre saudade. Respondo que aprisiona e você continua com a mesma resposta em seu olhar. Sua resposta contradiz seu sorriso, seu toque, e sua educação. Eu não deveria morrer assim de amor. Nem sempre saudade é simples. Preferiria um pouco de esquecimento. E quando digo que não preciso, aquele que escuta ri, e maliciosamente consente com a vida que, passando, ri também de mim e desse amor sempre saudade.

sábado, 23 de abril de 2011

Pequeno tempo do coretinho



Foi em volta desse coretinho que corría enquanto segurava, com uma das mãos, um cordão amarrado a uma bexiga flutuante; com a outra, agarrava um saquinho de pipoca doce, toda colorida. Coretinho pequeno, talvez pequeno também o mundo. Tantas pessoas são recebidas por essa cidadezinhas nos tempos de férias, e nestas ilhas de distância nunca fiz uma saudade doída. Sinto-me triste por isso. Sinto como que se passou e só. Faltam marcas como daquele amigo a quem esperar, aquela menininha a quem ver passar, falta um pedacinho do viver que gastei, fora do ambiente familiar, apenas nesse coretinho. Pois sabe que outro dia uma rapaz me Facebookeou: "Por certo você não se recorde de mim (...) Eu jamais iria reconhecê-lo se não visse uma mensagem de sua prima pra você". Ele, amigo também de minha tia, se lembrou do meu eu menino, "catatau", como chamou, na casa da minha avó, cidade deste coretinho. Tivemos tempos diferentes. Ah, peço que se alguém aqui passar férias, que corra comigo em torno desse coretinho. Eu estou sempre por ali, carregando a bexiga flutuante e a pipoca colorida.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Saudade do abraço teu



Pouco meus pés pisavam o chão. Era colo pra cá, colo pra lá, sempre um nó nos braços envolvendo o pescoço de alguém. Saudade daquele abraço que era seu. Saudade do meu próprio abraço, que deixou de ser só meu. Hoje eu não tiro mais os pés do chão, meus braços pouco servem para um nó mal dado. Abraçar por amor é diferente, não dá nó nos braços, prende mais é o coração. E que falta eu sinto em ter meus pés levantados, minha camiseta puxada pra cima, aquele apertão em volta de todo meu corpo. Hoje os braços estão menores, mas sei que é meu peito maior. Então tenho que abraçar envolvente assim é com o coração. Mas aqui, baixinho? Seu calor por algum tempo me protegendo, seu aperto me envolvendo, seus pés levando os meus a caminhar por ai, seguindo apenas sua trilha e confiante de estar indo para algum lugar seguro. É abraço de mãe, de pai, de tia e de tio, de amigos, vizinhos queridos que hoje são como ensaios de aquarela em minha mente. Mas saiba, sempre que fecho meus olhos e lembro de vocês meu pés voltam a sair do chão.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

De que lado nasce o sol



Seus pés mal começaram a tocar o chão e no entanto bastava erguer os braços que já alcançava as estrelas. Ele nasceu um pequeno dilema, desafiando todas as leis do homem sabido. Amava seu animalzinho mais amado do mundo, um elefantinho cor de rosa (desculpem, mas a imagem é preto e branco), com o qual brincava dia e noite, entre as estrelas, árvores e castelos encantados. Seu mundo fabuloso não tinha nada de inventado, ele era uma infância ideal, um pedaço da vida durante o qual nada é impossível. Juntamente com os dois, todos os sonhos os acompanhavam: eles eram núvens, como as de algodão, a flutuar nessa idade melodiosa. Todos que com eles cruzassem eram abençoados por uma vontade a realizar. Presentes não davam, mas entregavam desejos muitas vezes sublimados. Ah, esses dois! Até hoje, depois de tê-los visto passar - "De que lado nasce o sol, moço", questionavam, eu sei que o sol nasce é do lado de dentro. Saudades. 

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Coisas que devem ficar na saudade



Sempre que me falam sobre malas, espaço e recordações, peço para que guarde no coração. Se o coração for grande há sempre chance de caberem mais coisas. Se for pequeno, tente apertar, faça o que puder. As lembranças de carinho são as primeiras a serem guardadas: assim como a da foto que, mesmo de longe, me chamou a atenção e me fez lembrar de todas as vezes que sentei com uma pessoa querida e que ganhei um abraço. Depois, poria na saudade tudo o que não coube na mala: lembranças e as roupas novas, que voltam pra casa conosco. Ela vem mais leve, apesar de conter mais coisas. Trago, de minha última viagem, muitas flores, árvores lindas e pôres do sol dourados com um douradinho todo especial. É frio, e em Caxias do Sul-RS, o sol toma um tom muito especial no final de tarde. E é de lá que me lembrarei dos raios mais dourados deste inverno, aquecidos por corações como os dois da imagem acima.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Mas o amor não existe para fazer a gente feliz?

Porque então eu fico triste? Se saudade também serve pra fazer a gente feliz, lembrar de você fechar os olhos com meu toque também deveria me fazer feliz. Porque isso é saudade, porque meu carinho era amor, e porque agora eu não tenho mais isso, fico triste. Quase penso que o amor, no fim das contas, só deixa a gente é triste. Porque sempre um fica depois do outro, e quem fica sente mais, eu acho. Afinal, de nós dois quem ficou foi eu, então ainda não sei como acontece quando é a gente que se vai. Mas me acostumo com o sentimento que fica, que sei que não sai daqui, que não se troca nem se perde. Acho que teria doido mais, mas eu queria estar do seu lado no final de tudo. Não pude, ninguém pode. Saudade aparece mais quando se lembra pelo cheiro, pelo toque, pelo calor, pela companhia. Tenho todos eles, e você me mostrou que o amor existe para a gente se fazer feliz. Seja por estar junto, ou por estar dentro, quando um dos lados vai embora.