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sexta-feira, 16 de maio de 2014
Das coisas que não podem ser
Foi por acaso que parei naquele lugar. Fiz meu pedido e em pouco tempo notei você ali, com seus pais. Enquanto você sorria e falava coisas sobre ter comido bastante certo dia, eu pensava no sinal vermelho que eu havia acabado de atravessar, arrependido por tão boba infração de trânsito. Fez-se, logo, mais tempo que parei para olhar seu rosto: traços tão suaves, pele branca e macia, o corpo hermético, os olhos azuis, o cabelo loiro e liso. Faz pouco tempo que desviei meus pensamentos e comecei a pensar na possibilidade de tantos sorrisos serem pra mim, alguns das piadas bobas que contaria cotidianamente; outros, das besteiras que eu talvez faria para te ver sorrir e escutar essa voz um tanto quanto incômoda. Imaginei todas as possibilidade daquilo ali sair do acaso e se tornar nosso caso. De todas as imaginações possíveis, nenhuma fora viável: pedir um telefone, fazer uma declaração, mandar um bilhetinho. Sério? E foi assim que você se foi. Sem a possibilidade de ser, você se tornou mais uma das coisas que não podem ser. Paguei a conta e fui embora pensando nestas impossibilidades.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Tempo de espera
Ela chegou da França e trouxe os trejeitos de lá. Ele a conheceu no café do aeroporto, e a observava nos olhos enquanto ela arrumava, meio sem jeito, aquele chapéu última moda de tantos zeros. Quando percebeu que não daria conta do movimento, retirou o chapéu e o colocou sobre a mesa. Girou, então, sua cabeça soltando o cabelo preso por baixo daquele feltro. Olhou para os lados a procura do garçom; seus olhos cruzaram com os dele. Desviou o olhar atraída pelo movimento que lhe estendia o cardápio. Abriu o cardápio, pediu um café e sorriu com o canto da boca. O que pensava? Porque sorriu assim, evitando os olhos dele a partir dali? Agendas cheias, viagens marcadas, rotinas tão distantes que não daria certo qualquer relação longa mesmo que todos os olhares fossem correspondidos. Entretanto, instantes de carinho e atenção passageiros foram trocados por um sorriso de canto. E, ao abrir mão disso, um gole de café morno tomou o fugaz lugar de interações - ainda - humanas.
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