O que aconteceu foi assim: vi um papel se transformar em um nó. No peito. Desse que deixa de ser uma lembrança doce e contida na garganta pra se transformam num papel amassado e delicadamente posto de lado. Não se apaga da memória os momentos em que, ao desembrulhar aquele sentimento, o barulho rompia com o silêncio e com os olhares nele navegando saborosamente. Foi quando o leve toque protegido entre esses dois pelo algodão frustrava qualquer desejo antecipado, e suas vontades confusas e contidas deixavam a simples promessa de sabor mais adocicada ainda. Nesse movimento tais vontades revelaram-se, numa das pontas desse papel, contraditórias e, na outra ponta, confusas. Tantas foram as palavras colocadas tão naturalmente, tão docemente que fundiram-se sem o sabor desses dois. E o desejo ali se dissipou... primeiro em uma das pontas... até levar também o da outra. Presenciei, ainda, boas explicações que envolviam destinos, fases positivas da vida, situações demasiadamente delicadas, complicadas... elas não me convenceram. Assim, no meio disso tudo, um nó. Testemunhei tantas tentativas de desfazê-lo! Estranho foi saber que todas essas tentativas foram sinceras e honestas, mas mesmo assim parecem não ter tido efeito algum. Mesmo com olás brancos engavetados. Creio que as tentativas tenham sido esgotadas quando encontrou-se aquele beijo no canto de uma foto quase perdida nas nuvens. E foi justamente quando apenas o nó criado pelas próprias pontas os separava. Fez-se, naquele momento, nó de chocolate branco.
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terça-feira, 4 de setembro de 2012
sexta-feira, 20 de abril de 2012
A última e o primeiro
A última agonizava, chegava-se ao fim - chorava. O primeiro sorria de orelha a orelha, ainda que sem jeito - verdadeiro. Enquanto ela tentava em vão enganar seus relógios, ele sentava alegremente a voar pelo tempo. Inútil a última tentativa de dissipar, inútil pensar que haveria retorno, inútil sentir tanto aperto no coração. Tudo que se mostrava agonizar o fazia pelo bem até então vivido. O sentimento verdadeiro era o bom, tanto que falta já lhe fazia da existência que chegava ao fim. Pensamos - e queremos - que dessa passagem com aperto se lembre. Dores dessas sentem os que amam profundamente e são capazes de suportar, esses algozes! E tal início, ele, ainda jovem como criança, vem povoar o coração com um friuzinho na barriga que pensamos - e queremos - que dure tanto quando dure o sentimento daqueles que amam profundamente. Ela, a última vez que os veremos namorados, termina em breve. Ele, o primeiro dia que os veremos casados, começa em breve. Serei testemunha.
ao amigo Renato Menezes, que casará hoje, logo mais.
ps: foto roubada do blog do companheiro Guto Sonemberg, do qual sou grande admirador
ao amigo Renato Menezes, que casará hoje, logo mais.
ps: foto roubada do blog do companheiro Guto Sonemberg, do qual sou grande admirador
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Pra uma namorada
Eu penso em como superar a falta dela, mas oro para que seja ela a pensar sobre isso. Penso em como dimunuir a dor, minha ou dela, a que doer antes. Penso em como as coisas não estão mais como eram. Penso em como a gente viveu, como tudo passou, como sobrevivemos a tantas coisas. Penso, mas no limite daquilo que chamo de lembranças - fracas e cada vez mais duvidosas.
Penso nas besteiras que fizemos. E nas que superamos. Penso sobre como temos nossa beleza amadurecida, nossos corpos e rostos. Penso que beber água, bastante água, foi bom. Evitar comida ruim também. Penso nos filhos que tivemos. Próprios ou não. Penso no que construímos, no que pudemos comprar. Casa, carros, máquinas fotográfica e bolsas. Penso como foi dificil o começo: emprestar, parcelar, herdar, dividir para somar. Penso na ajuda que nossos pais deram. Penso no nosso amadurecimento profissional. Em nossas escolhas e aptidões. Nos valores que nos demos. E nos respeitamos. Penso como foi o começo, primeiros empregos, segundos, concursos. Passeios! Penso na primeira noite em nosso apartamento.
No que passamos para tentar - e viver - esse sonho. Penso em quando ainda jogávamos horas fora com filmes chatos ou de medo. Capucinos inventados, vinhos que só eu tomei. Penso em quando andávamos de mãos dadas e era estranho. Quando numa rua, que era minha, a vi pela primeira vez. Penso quando sonhava com alguém entrando em minha vida, por passagem em minha cidade. E me levando. E assim foi. Penso quando procurava você e não entendia que o tempo não era aquele. Penso como sofria. Queria, sabe. Já estava me preparando. Penso quando beijei outras bocas e todas me foram estranhas. Só a sua me acolheu. Penso quando não pensava no meu primeiro amor. Vergonha.
Penso quando praticamente não pensava: eu sentia texturas, temperaturas, geometrias. E olhava como quem olhava pela primeira vez. E era, então, novamente bebê-criança. O bebê Santiago. E, então, eu era apenas uma barriga grande e quente. E já tinha o mundo em meu coração: esperava por você. Pra você quardei o amor que pude dar.
Penso em como o tempo foi bom, em como as coisas se ajeitaram.
Penso nas besteiras que fizemos. E nas que superamos. Penso sobre como temos nossa beleza amadurecida, nossos corpos e rostos. Penso que beber água, bastante água, foi bom. Evitar comida ruim também. Penso nos filhos que tivemos. Próprios ou não. Penso no que construímos, no que pudemos comprar. Casa, carros, máquinas fotográfica e bolsas. Penso como foi dificil o começo: emprestar, parcelar, herdar, dividir para somar. Penso na ajuda que nossos pais deram. Penso no nosso amadurecimento profissional. Em nossas escolhas e aptidões. Nos valores que nos demos. E nos respeitamos. Penso como foi o começo, primeiros empregos, segundos, concursos. Passeios! Penso na primeira noite em nosso apartamento.
Nas passagens pela frente acompanhando, tijolo a tijolo (pré-fabricado) aquele cantinho - "simples, mas é nosso", como ela me disse certa vez - se erguendo.
No que passamos para tentar - e viver - esse sonho. Penso em quando ainda jogávamos horas fora com filmes chatos ou de medo. Capucinos inventados, vinhos que só eu tomei. Penso em quando andávamos de mãos dadas e era estranho. Quando numa rua, que era minha, a vi pela primeira vez. Penso quando sonhava com alguém entrando em minha vida, por passagem em minha cidade. E me levando. E assim foi. Penso quando procurava você e não entendia que o tempo não era aquele. Penso como sofria. Queria, sabe. Já estava me preparando. Penso quando beijei outras bocas e todas me foram estranhas. Só a sua me acolheu. Penso quando não pensava no meu primeiro amor. Vergonha.
Penso quando salvava planetas, cidades, era super-herói - ao lado do meu pai - sem conhecer as super-heroinas que são as mães.
Penso quando praticamente não pensava: eu sentia texturas, temperaturas, geometrias. E olhava como quem olhava pela primeira vez. E era, então, novamente bebê-criança. O bebê Santiago. E, então, eu era apenas uma barriga grande e quente. E já tinha o mundo em meu coração: esperava por você. Pra você quardei o amor que pude dar.
(Versão com meu amigo Marcelo Araújo e Haline)
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Cartas - Para meu velho
Demorei certo tempo para entender suas entrelinhas. São tantas! Por aqui algumas coisas têm dado certo, muito certo, e tu as sabes bem. Mas algo me inquieta profundamente. Sempre me inquietou, na realidade. Como lidamos com essa angústia? Tenho tido com outros sobre isso. E eles também o sentem, são por demais olhadores deste mundo tantas vezes miserável, têm a alma acima do nível desses alienados e estúpidos que entendem tudo aquilo que se é conceituado para ser entendido mesmo. Nunca vão além, são incapazes desde nascença. Estes, com quem tenho tido¹ e que são bons olhadores das coisas, tem os olhos perdidos, sentam-se sozinhos à mesa, pedem uma única coisa, não dividem a conta, por vezes sequer sorriem. E, no entanto, têm um universo dentro de si, e tem olhos que atraem toda a matéria luminosa para seu coração negro. É isso que sinto. E por mais que eu trague toda a luz das coisas perceptíveis, sensoriais e visíveis deste mundo ainda sinto que não será o suficiente. Talvez o buraco seja mais embaixo também.
¹ - http://renatomenezes.blogspot.com
http://vamosnessa.blogspot.com
http://lenhadormachado.blogspot.com
domingo, 23 de janeiro de 2011
Cartas - Do velho para o moço Santiago
Caro moço Santiago. Aqui, de cima dos tantos e tantos anos, me lembro de uma época apressada em sua vida. Sua pois não posso dizer "nossa": você ainda amadurecerá bastante no caminho para chegar aqui.Tal época - me lembro com sentimentos como se fosse ontem - foram de incertezas, escolhas e de delicadas e não muitas opções. Opções estas que você se cagou na ânsia de lidá-las, e que sei que em tal época já sabíamos que passávamos pelos nossos caminhos com medo. Depois que passamos da etapa do medo, muito mais presente na gente do que mostramos isso aos outros, eu passei a enfrentar com calma, qualidade esta que você está construindo ainda. Saiba que daqui tudo é muito mais calma e belo. Vejo com carinho cada uma das nossas escondidas no canto do quarto. Dai, dos nossos 20 e poucos anos, tenho certeza que você vai lidar com força e fé, rapaz, mesmo sabendo hoje ainda creio que desconhecemos nossa verdadeira força. Tivéssimos mais anos para mostrá-la, fariamos a revolução. Ao menos em nossos três corações. Saudades eu sinto deste seu tempo apressado, apertado, mas tão querido! E olhe lá, cuide bem das nossas coisas por ai, afinal, se as tenho com carinho aqui é porque eu soube lidar. Saiba também, meu querido!
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
É você, sim, essa gente
[penso]. Velho que sou, não sei como lhe dizer, caro amigo. Talvez, se ao menos soubesse o que dizer, seria mais fácil. Talvez. Fato é que me levanto todo dia e saio com o dedo em riste: "é você, sim, essa gente", e me coloco, assim, na minha própria condição humana [creio semelhante a sua]. Meus olhos sequer abrem-se e já penso algo como "de novo, preciso ir pra lá". E todos os dias têm sido assim. A angústia, se é que é isso, que deita-se toda noite comigo, existe pelas possibilidades não realizadas. E se não tivesse que ir pra lá? Ou, principalmente, se não tivesse tal consciência sobre essas coisas todas - ainda mais presente - que me confrontam em cada ladrinho 5x5cm que ponho os sapatos, sempre com cadarços bem apertados? Já pensei o que seria melhor, se saber da realidade ou sequer ter como separá-la do meu cotidiano, me deixando assim alguém incapaz de pensar sobre mim mesmo. Acho que o caminho de nossa juventude não se limita em nada, nem em ninguém. Mas é preciso ater-se no que não é palpável e isso implica abdicar de certas coisas que nos confortam. Tal consicência e lucidez não contentam-se com a faca e o queijo na mão. O que elas precisam é da vontade de comer.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Carta resposta do menino Santiago (à Carta 1 do velho)
Meu amigo fico aqui só pensando em como você está ai em cima nos seus 30, 40 anos, olha que sinto que você se preocupa comigo mas é uma preocupação que não precisa ser: eu não bebo café ainda e se ele esquenta ou esfria pra mim não vai ser útil de nada. E sobre minha coragem não sei bem o que isso que dizer mas eu passo pelas coisas é com medo, a coragem vem só depois pra aguentar a imaginação de que coisas do tipo sempre acontecem... tô só é pensando se meu pé ainda cabe nos tênis sempre ou se preciso de tênis novos todos os anos, não sei quanto custa, mas dá muito trabalho pra mãe comprá-los e as roupas elas rasgam fácil ainda? É porque tem umas que gosto muito e que acho que você gosta de dormir com elas quando tem medo, mas eu vou tentar não rasgar todas assim você fica com a coragem delas. Ahh não adianta me falar para dormir cedo porque você sabe que é porque quando tanto eu como você ou a gente, sempre, podemos fazer tudo o que a gente quer. Mas me diz.. você aprendeu a apontar meus lápis de cor sem quebrar as pontas sempre? Daqui, fico com saudade, e guardo tanto que quero saber de você. Acho que vou fazer uma redação e te mandar qualquer dia, pra você por no blog.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Pra ti, meu pequeno Santiago - Carta 1
Escrevo como se esta carta realmente lhe fosse chegar às mãos, meu pequeno Santiago. Entrecortadas por um gole de café, vou escrevendo minhas palavras com um aperto no coração. Acontece que não quero lhe revelar o que de bom você ainda viverá, mas tampouco me dou licença de prepará-lo para o que terá de enfrentar, mesmo com forças que terá que buscar fora de ti. Sei que vai compreender meus medos, afinal, alguns deles advém de você ai embaixo, ainda criança, moleque de pé descalço e tudo mais. Tenho pra dizer que aqui, de cima dos meus 40 anos já vividos, muita coisa não saiu como você ai, lá pelos nossos 10 ou 20, imaginou que seria. Sorte essa foi a nossa! Não teria tido graça viver o que já tinhamos vivido em pensamento. E graças a isso garanto que é um caminho de alegrias, de contruções, de experiências que você não faz ideia, meu pequeno. Alegre-se hoje, como se tu recebestes notícias minhas daqui. E viva, tire o chinelo e pise no asfalto quente, tire a camiseta e molhe-se na chuva. Aproveite a noite e durma cedo. Por que pra frente, meu querido, a gente perde um pouquinho da coragem de criança, e o café esfria mais rápido do que temos tempo para tomá-lo...
terça-feira, 6 de abril de 2010
Pessoas mais quentes em dias assim
Num tempo como este se encontram dois amantes, transgride um adolescente, recai um bêbado em algum canto só. Em todos os casos acompanhava o frio, sinal de um pleno outono sem planos ainda para qualquer outra coisa. Sei que eu quero estar junto a ti, mas se não me vem o amor do oposto, aqui eu tomo a segunda taça sozinho. O vinho é bom, leve, cabernet, me lembra chocolate com passas. Me lembra nossa primeira taça juntos, o seu primeiro gole e, talvez, ainda não sei, minha última vontade de estar contigo. Mais um trago. Me falha a memória. Não lembro mais o ponto de servir, o tempo de repouso antes do primeiro gole, nem mesmo o tempo de repouso antes do primeiro beijo. Acho que não deveria existir. E por isso trago o beijo antes mesmo da vontade, mecanicamente. Mas isto talvez seja a vontade, não o beijo.
sábado, 10 de outubro de 2009
CARTA PARA QUEM ESTÁ DISTANTE
Que tais carteiros épicos, vestidos de azul ou verde a serenar, encontrem esses endereços espirituais secretos, à margem de um riacho em construção. Porque alí mora meu grande amor, sobre uma monta peculiarmente ornamentada de bromélias e orquídias convalescentes. És imortal e talvez a um remetente precoce não se lembre. Que falta fará um telegrama de amor, a quem está acostumada a ver o começo e o fim das coisas? De certo rirá.Esse tipo de alma feminina, sempre a encantar, talvez esqueceu-se como encostar a cabeça sobre um peito e ritmar respiração; talvez como entrecruzar os braços e pernas não se lembre, e que falta sente um homem sem o carinho necessário para ser homem outra vez no dia seguinte. Mulheres de Athenas, Carolinas, Iolandas, tais Helenas ainda persistem? Quanta força tenho sem saber que por mim teces e desfias no mesmo em que respiras, que tal saudade é presença - e não falta - e que falta me faz um pouco estar ao lado seu.
Sentes saudades por algo perto mas que se faz distante? Se souber aproximar, me diga, escreva, me conte, porque tenho tentado e falhado. Tenho me colocado na linha de frente, mas sem o oposto para o combate e que falta me faz uma explosão de sentimentos! Como explodir um encontro de sentimentos sem ser assim, explícito, sem assustar, sem acuar um coração não tão intenso, talvez menos que um uma fruta demasiadamente doce. Como aproximar sem deixar minha sombra, antes, a mim anunciar e exponencialmente enganar com sufoco um excesso que, na realidade, é só uma sombra projetada em tamanho irreal? Me responda.
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