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segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Alma passadeira

 


A graça que mais me encanta na fotografia é o congelamento. Fácil deixar tudo parado com minha máquina. E, ao parar, tudo fica pra sempre ali, estático, meu, pra sempre. Mas não é assim. As coisas não deixam de passar, vão junto com minha alma passadeira inquieta desse mundico. Imagino se em outros lugares as almas tb passam ou se elas permanecem. Tudo, ao que nos parece, passa. O estado transitório é que parece permanecer. Que ironia, eu penso. Quero o perfume de uma flor pra sempre, mas, pra isso, preciso de todas as flores que passarem por mim. O que permanece são os rastros, mera luz das estrelas refletida. 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Prazer em conhecê-lo



Há uma estranha aproximação em todos os finais de ano. Dois entes que se aproximam, se tocam, se beijam, e não se veem mais. Aquele que se aproxima é sempre um desconhecido. Traz, às vezes, expectativas sobre ele - boas e ruins - mas sempre é desconhecido. E acostumamos a nos entregar a ele de forma calourosa, vibrante. Àquele que se afasta, agradecemos e mantemos ele presente em nossas fotografias e memória. Duas presenças assustadoras pra mim. Não tenho de nenhum concretude, mas sempre sonhos, esperanças ou memórias e fotografias. Ambos coexistem, mas não se tocam. Há um momento no qual eles se olham, se aproximam, tenho certeza que se tocam e, da mesma forma fugaz, se afastam, ainda se olhando, com o que sobrou de molhado do beijo que trocaram por formalidade. As luzes acesas, o barulho de rojão, o álcool no sangue das pessoas, o olhar curioso da criança, a comida pesada no estômago e a presença de pessoas queridas ao nosso entorno. Esses dois caras observam tudo isso. Ambos podem nos trazer novas presenças cada qual da sua maneira: ou pela memória do ente passado de pessoas queridas que amamos e que se foram, ou pela força do ciclo que renova nossa humanidade. Ambos trazem dor e alegria, ambas emoções se misturam e formam aquilo que de mais essencial e exclusivo há em todo o universo: a vida humana. Prazer em conhecê-lo, ano novo. 

sábado, 20 de maio de 2017

Notas imperfeitas sobre ela


Nesses últimos anos todos tenho escutado sobre as minhas faltas de atenção. Como se eu não as conhecessem melhor do que ninguém. Toda elas, absolutamente cada uma delas, contam minha história: quem eu sou, como levo a vida, as coisa que tolero e as coisas que me toleram. Nessas conversas unidirecionais e quase dissociativas tento me esconder em vão, afinal, eu sou meus defeitos, assim como também sou meus acertos. O engraçado é que também tenho notas imperfeitas sobre ela. O fato de nunca as dizer não significa que não me incomodem de alguma forma. Significa que tenho serenidade para não trazer essas notas e deixá-las sobre a mesa de café da manhã ou do jantar ou começar nosso domingo com elas tomando um espaço que prefiro preencher como carinho e afeto. Por exemplo: no começo eu até achava engraçado todos aqueles copos sobre a pia, usados para o mesmo fim: tomar água. Cada copo um pouco de água. E assim todos os copos eram usados e deixados sobre a pia. E eu sempre os lavei, sem qualquer raciocínio pessimista sobre isso. Coisa pequena que, com o tempo, foi-se reduzindo até que não vejo mais tantos copos usados com o mesmo propósito. O tempo deu conta de ajustar os copos, pq eu me preocuparia? Outra nota da imperfeição sobre ela é o chuveirinho do banheiro sempre fora do suporte (que é a própria torneira) e aberto. E isso não me incomoda: a cada banho eu o fecho e o guardo, como quem ganha tempo para gastar com amor e não com reclamação. Também é comum se fazer a limpeza perfeita do quarto e deixar, sobre o notebook e a mesa de trabalho, antes arrumados, todos os fios e cabos que estavam antes no chão. Termina-se a limpeza, mas nem tudo volta ao seu lugar. O arrumado sujo deixa seu lugar para o desarrumado limpo: os fios permanecem ali por algum motivo também imperfeito que, com nem 2 minutos de leve esforço, tudo volta à normalidade sempre imperfeita de antes. A cama sempre desarrumada também me alerta: ali faltou atenção. Mas qual o prejuízo? Três, cinco minutos esticando ali e dobrando duas cobertas leves? Em um esmero olhar cabe o infinito se há amor. Comparado a isso, o prejuízo por expor tais notas imperfeitas em minutos de discussão ao invés de um olhar de ternura custariam várias eternidades de olhares. Seria muito prejuízo. O que dizer então da gaveta de roupa que, quase sempre mal fechada me impede de abrir a minha? E o espelho do carro que sempre é deixado pra baixo ou então, sempre que paramos, suas coisas são deixadas sobre o meu banco e não sobre o próprio banco dela? Coisas tão pequenas que sem minha ignorância explícita e proposital poderiam se tornar mal entendidos e discussões fúteis que levaria qualquer gostar que sobrasse para longe da nossa convivência. Há mais notas imperfeitas sobre elas, mas que ficarão para a próxima canção que estou compondo.  

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Noite angular


Há todo um espaço vazio esperando ser preenchido. Ele é azul. Às vezes branco. Às vezes preto. Avistado de um bom lugar, olhado de lado a lado, ele é interminável. Cabem todos os pensamentos, seja os já feitos, seja os deste instante, seja do tempo a seguir. Mas tão efêmeros que, de repente, crepúsculo! A maioria dos pássaros se cala enquanto outros começam seus cantos. Na escuridão, eles são dissimulados, tristes, inconstantes. O céu escuro se abre em uma noite grande angular. Algum homem menino criou brinquedos pra ver a viajante luz que chega daquele espaço vazio. O céu não é mais azul. Nem negro. Agora tem brilho, cores escondidas. Aparecem magenta, cian, laranja no horizonte. Às vezes algumas cores ateiam fogo no céu e na nossa imaginação. São mais que meteoritos. São sentimentos navegando por lá, naquele mais que um Google vazio. Há um espaço todo preenchido por pequenas esferas de cristais além céu. Vai se alegrando conforme a hora avança. A minoria dos pássaros então se cala enquanto outros tantos começam seus cantos. Já na penumbra do amanhecer, sussurramos todos os nossos pensamentos antes de ir pra casa. O céu se abre em um dia objetivo enquanto, enfim, a noite dorme, angular na espinha dorsal do universo.

sábado, 13 de setembro de 2014

Já somos outros


É sobre ver todas aquelas pessoas novamente quinze anos depois. Elas ainda lá, na pequena cidade, trombando contigo da mesma forma, ao acaso. Sempre me pergunto se elas ainda se lembram de mim, se me reconhecem, se sabem meu nome. Noto que os rostos são quase que outros. Em sua maioria, cansados, tristes, como os meus devem estar. A rua mais vazia, as árvores também morrendo (percebi que na cidade elas duram menos), as coisas fora de lugar. Tudo parece fotografia manipulada. O tempo, que deveria ser bom, tem machucado. As aventuras não tem sido inesquecíveis e minhas decisões, arriscadas, têm me cobrado muito durante o sono. Dois anos depois, o menino se esconde novamente. Deve estar trepado em alguma jabuticabeira cuspindo o caroço na minha própria cabeça.

domingo, 14 de abril de 2013

Céu carregado


O céu fica carregado quando algumas tarde de outono terminam seu dia. São dias especiais, em épocas específicas, tempos que trazem manhãs difíceis de prever. Por isso os cantos dos pássaros mudam, as cores têm menos ou mais saturação - depende do momento -, o contraste da vida vai diminuindo e os dias passam a parecerem-se todos. Aquela música que tanto te alegra causa o mesmo efeito que causa um olhar desavisado para a pia suja que a gente não se importa em lavar. Os soluços, suspiros, bocejos tornam-se um bom dia na boca de um estranho e o chocolate já não adoça mais o leite. São dias assim que lhe mostram a passagem do tempo. Épocas nas quais viver toma um novo sentido e um significado mais próximo do existir. São tempos que se repetem de vez em quando. São dias que eu gostaria de entender seus significados.

domingo, 18 de novembro de 2012

Salada de professores


Às vezes, pra quebrar a rotina, fazíamos festinhas caretas na sala de aula. Era o finalzinho do Ensino Fundamental, mas lembro-me que mantivemos essas atividades também no Ensino Médio. Uma dessas festas era de Salada de Fruta: um vinha com a banana, outro com a uva, maçã, pera... e, quando montávamos tudo numa bacia de alumínio da cozinha da escola, estava ali nossa salada. E que salada. Não digo gostosa, já que tenho minhas predileções: não gosto de uva com semente, nem maçã com casca, também prefiro a salada regada com tubaína e não com suco de laranja. E jamais com creme de leite ou leite condensado. Mas hoje gosto mais da salada de fruta que me traz um breve tempo do passado pra mais perto, pro meu presente. Me lembro, antes de tudo e de todos, do professor Luís Carlos, de Geografia. Um homem sério em sala. Palavras bem colocadas e bem entonadas. Mas lições que não me esqueço: humildade, sabedoria... coisas que, quando adolescente, nos fechamos para reconhecer nos outros. Relembrando carinhosamente essas aulas, hoje encontro grande passos metodológicos em suas palavras. Devaneios que passeavam pelos diversos tipos de conhecimentos e materializações deles derivadas. Sobre a salada de fruta, fizemos, certa vez, em sua aula. Me lembro que falávamos que não era atraente o fato da maçã e da banana amarelarem. Ele sorriu, e então nos ensinou um segredo para que isso não acontecesse. Luís Carlos já se foi. Há uns 8, 10 anos. Mas eu, ao usar desse segredo agora há pouco, o trouxe bem vivo um pouco mais pra perto dessa distância toda.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Nós e nossos eles


Vez ou outra penduro imagens mentais da minha vida no teto da minha idade. A cada novo ano, novas experiências; não necessariamente valiosas. Somo, em alguns anos, o mesmo que em meses, semanas de outras épocas. E esses últimos tempos têm sido ricos nesse sentido. As grandes e valiosas amizades, as coisas boas compartilhadas, as grandes aventuras no meu mundinho pequeno, as mentiras descaradas dos outros e minha carinha de quem acredita. Tempo de tudo e de todos. Todos dependurados ali, nas minhas imagens aéreas. Às vezes preciso me afastar pra tentar olhar pra algumas deles. Tento ponderar, observar o que houve. E pouco vejo. Meus eles se dissimulam quando os encaro. Me afasto mais ainda, tento manter experiências com as passagens da vida. E muitas tão pouco me trazem: pessoas que pouco - ou nada - me mostram. Queria até deixá-las fora desse texto, mas, sem citá-las, como poderia excluí-las? Desses tempos fabulosos, porém, levo gravados ensinamentos. E foram doídos, só assim pra marcar. Eles todos me abrem para um outro eu e seguem comigo agora. Vão pra sempre, dependurados no meu teto e ao alcance das mãos. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Conversa de um moço



Sei que fui insistente de mais. E sei que fui pouco insistente outras vezes. Sei que não pesei adequadamente cada uma dessas vezes. Sei que fui ausente de mais. Percebo que outras vezes fui presente demais. Lembrando desde nossos primeiros anos, percebo o quanto eu errei com você. E percebo também o quando eu errei comigo. Tenho pensado, relembrado, revividos diversos momentos. Me remoído. Alguns fatos praticamente esquecidos. Sei que presenteei demais. E tenho convicção de que hoje eu presenteio de menos. Sinto que exigi de mais. E percebo que talvez tenha exigido pouco ainda. Me impus excessivamente antes. E não me impus adequadamente quando deveria. Nem mesmo hoje. Sei que chorei. Muito. Em cada uma dessas vezes.

Convivi demais com você todos esses anos. Fui ausente em cada um desses anos. Te liguei diversas vezes. Por diversas vezes passei tempos procurando um orelhão. Era madrugada. E tantas outras deixei de te ligar da sala de casa. Tantas vezes não disse que amava, me calei. Mas tantas outras demonstrei! Vivi momentos intensos. Também a monotonia. Respirei ares carregados. E me senti flutuando alguns tempos. Estava leve. Fui pesado demais e me arrependo disso. Mas não esqueci de ser delicado também. Fui sincero. Falei demais. Era preciso calar. E ainda assim me calei. Escutei mais que o suficiente. Mas não escutei o necessário. Olhei fundo nos seus olhos. Quis ver sua essência. Mostrei a minha. Escondi a minha. Andei pouco com você. Andei mais sozinho. Porém não fui errante. Olhei, entretanto, pro mesmo horizonte. Acelerei meu passo. Fui na frente. Olhei pra trás. Voltei.

Toquei pouco seu cabelo. Segurei sua mão com ternura. Respirei o seu ar. Não respondi com candura. Fui sarcástico. Fui honesto. Pedi arrego. Perdi esperança. Tive sonhos. Estabeleci metas, protelei tantas vezes! Fiz planos. Desfiz diversas vezes esses planos. Os refiz. Tivemos tantos momentos. E passaram esses momentos. Fui inconstante, inseguro e imaturo. Errei muito e me dói tanto. Acertei tão pouco em meu julgamento. Orei. Chorei mais. Nunca o tempo parou pra eu me refazer. E refiz meu sentimento diversas vezes. Me refiz enquanto pessoa. O tempo foi passando. Me fiz enquanto adulto. E, adulto, quero fazer um juramento de felicidade. Sinto que fiz tanto. E vejo que deixei tanto ainda por fazer. Precisamos ser felizes. Quero que você seja feliz.

domingo, 9 de outubro de 2011

É saudade?



Café novamente para abrir este post. Mas sabe porque? É que me dei conta de algo que creio que você também não se deu. O café abre nossa semana, não? Recorremos à ele praticamente todas as semanas, em algum dia. Mas perceba além. Abrimos a semana com café porque abrimos o dia com café. Abrimos com café o que, a semana ou o dia? Pois é. Se sinto saudade, sinto de que tempo: do hoje, que sei sentirei sua falta, ou da quarta que sei que não a verei? Da quinta, da sexta... ou é saudade apenas do primeiro dia? E esse primeiro dia abre o quê? O primeiro dia da semana ou o primeiro dia de toda uma vida? Começar o dia com café é certamente uma das certezas da vida. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Dure pouco, mas pra sempre



Não dá pra falar que vou lembrar de você por todo minha vida, vidinha curta, que isso será minha lembrança sobre um dos meus namoros que pouco significaram. E nem quero. Mas é importante que lembre do meu sentimento por você e o que isso me significava nesse pouco tempo que passamos em minha casa. Tampouco desejo um banquete gordo e indigesto para o natal ou uma virada de ano numa praia limpa qualquer à prestação. Mas que não perca a vontade de comer ou que deixe de conhecer novos lugares e pessoas por tão pouco. Seria importante conversar menos, não falar só pra ter assunto, mas utilizar as palavras para coisas mais úteis e colocá-las com precisão para despertar o devido sentimento. Assim como prefiro ignorar e não dar valor algum pra alguém do que bater boca com essa pessoa que quase nada significa pra mim. Vale mais aquela paixão sinceramente fútil, efêmera, volátil, de uma noite, uma garafa de vinho e uma taça quebrada, do que o amor meloso que desperdiça meu tempo com pequenos atos encenados pra agradar a quem quer que seja. Prefiro lembrar do calor que queima minha pele e me marca do que daquela camiseta fresca, barata, que rasga fácil e que logo troco por outra. Assim como sentir o frio que me oferece um vinho ou um café me aquece mais minha alma do que aquele cobertor barato que lavo antes de todo inverno. De manhã, toda manhã assim, prefiro sentir sua ausência do meu lado enquanto estás fora do que olhar pra sua cara lavada e mal-humorada. Que o objeto outro me perdoe, mas não abro mão do que está no meio das nossas significâncias baratas.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O menino, o moço e o velho

"Não sei como começou. Não sei se foi o capricho de um garoto escondido no corpo de um velho, ou o ideal de um jovem refletido no olhar de um adulto".



Assim começa a narrativa do filme O Estudante, um filme espanhol, de Roberto Girault. Primeira indicação que dou. Quem assistir entenderá o porquê. Bem... pelo começo da narrativa já dá pra se ter uma ideia... não? Ah.. há também o Santiago, um dos protagonistas do filme. Falar mais estraga.

domingo, 3 de abril de 2011

Nesses 30



Daqui, de cima do meu 30º andar da vida, noto um vai e vem constante dos meus pensamentos e sentimentos. E rio, de orelha a orelha, pois vejo o quanto eles estão desalinhados comigo. Me sinto cada vez mais criança e no entanto estou cada vez mais velho. E moço que sou vejo essa falta de sintonia toda e rio, novamente, de toda essa situação. É que, moço, não me acostumei com coisas cotidianas e simples, que já deveria encarar com naturalidade, com um pouco daquilo que ousamos chamar de maturidade. Ainda arrepio quando, por exemplo, da firmeza com que as pessoas dão suas opiniões. E rio por dentro, reforçando minha total vontade de dizer "que se lixe isso tudo". Talvez já tenha, desde menino, ultrapassado essa necessidade absurda de mostrar alguma coisa a alguém. Eu, desde que me lembro, só quero ter meu tempo, andar no meu ritmo, parar quando quero. Claro que compartilho alguns passos, e até gosto. Mas não gosto que meus passos sejam partilhados entre aqueles que pouco se dão para mim. E é então que eu páro, e rio. Rio sempre, desde sempre. Rio agora e, sorrindo, compartilho com os amigos, que aqui param para um café, um pedaço da metade do meu 30º bolo. Metade porque a outra metade já havia sido comida (na noite anterior ao aniversário propriamente dito) por dois maravilhosos sobrinhos que amo tanto. E sabe que mais? Sobraria mais bolo em meu coração para todos se eles o tivessem devorado todo, pois ai eu só teria meu peito para guardar os pedaços que aqui lhes ofereço.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Meu pequeno Gene Kelly



E são em dias assim, escuros, que noto certo brilho em suas brincadeiras. Elas soam como advertências quando fora de contexto mas penso que porque ainda me limito em saber. Como é limitado meu conhecimento, como pequena é minha mente. Vejo que meu pequeno Kelly já cantava na chuva em dias de sol, bem à frente da minha maturida sã que, ao menor sinal de chuva, se perde, calada num canto desses de quinas, e fica ali preguiçosa. Não me preparei pra sobreviver com aquilo que pra você era pra brincadeira. E depois que minha fase de brincar terminou, esqueci como se faz isso. Por isso hoje tenho certas dificuldades, medos. Quisera eu ter uma casa na árvore, hoje saberia morar em qualquer tronco. Quisera ter um carrinho de rolemã sem uma das rodas, andaria com qualquer carro. Quisera ter vivido sem videogame, me contentaria com qualquer tipo de brincadeira. Quisera ter amado mais, sofreria muito menos por amor.  

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sobre a convivência consigo mesmo


E porque a gente é assim que a gente não leva de outro jeito. É obvio, é certo. Mas, no entanto, isso às vezes coalha meu café (vai leite nele).  De certo lá nos fios as andorinhas não se atrapalham com o calçado. Perceba que muito menos se misturam. A foto é minha, eu que fiz. Achei estranho e pensei sobre convivência mútua, no caso, do homem com si mesmo, como dois seres distintos: um quer estar junto ao seu íntimo, aos seus sentimentos naturais, àquilo que, de certa foma, se assemelha a ele mesmo; já o outro, este só lhe pendura os calçados nos fios. É natural que estejamos tão fora e dentro consigo mesmo? Penso nas implicações: euforia pela esquerda, alegria, partilha; solidão pela direita, reflexão, percepção de tempo alterado. Quando fico muito assim, pensativo, fazendo associações inimagináveis é que páro, olho no espelho e percebo o menino sorrindo, como se tudo isso fosse uma brincadeira dele (e o velho aprova)...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Esses meus grandes pequenos



Dei por mim que tenho tido com muitos grandes pequenos que desconhecem sua própria natureza. Talvez seja eu um deles também. E creio que já treinei a olhar para pequenos que são grandes, grandes em algo que sequer chega ao calcanhar dos meus pequenos. Sei que este tamanho não é medido por metro, pés, o que for. É medido pela própria medida do homem enquanto ser, enquanto vida, enquanto fé. E falta fé em muitos por ai, com títulos de grandes e com grandes títulos. E sobra humanidade em tantos outros pequenos, estes meus grandes pequenos! Não seja imaturidade, não seja arrogância, não seja a dureza com que nos ralamos ao curar nossas feridas lambendo-as. Que seja aquele olhar perdido, desprezado, fraco e sem vida. Está ai um terço da grandeza humana: na sua falha, na sua fraqueza; é no seu oposto que vive meu desprezo pelo raso em salto de profundo, que dá com a testa no fundo da piscina, que come da areia que lhe entra nos dentes. Por isso faço questão antes do tempo vir: pego meus grandes pequenos e com eles escuto um último rock´n´roll do John: 

"Well we all shine on
Like the moon and the stars and the sun
Well we all shine on
Ev'ryone come on"

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O sono que não vem



Já que o sono não vem, venho eu pra cá. Mas tem motivo: sabe - lembra - quando criança que brinquedo novo tirava sono? Pois da mesma lembrança me nutro agora. Mas não tem mais brinquedo, mas tem a vontade. Se foi o carrinho, me ficou a vontade de viajar. Coisas do Menino, tão escondidinho por esses dias. Ele quer na mão ter o que precisa pra deixar bonita as coisas dos outros. Logo ele consegue, danado que é. Falta de sono não é defeito, sinal é de que coisas precisam ser feitas. Quais? Tantas que nem dá tempo, precisa escolher senão a vida - uma que só ela consegue ser - não dá conta. Por isso ligo a TV, vivo sonhos que estão nos contos dos outros. Quissá viveram, ou então inventaram, não sei, mas poderia ter sido. Eu mesmo teria sido tantas coisas outras que não este que aqui estou. E saber disso talvez seja o mais importante. Não saber disso seria apenas outra vida por ai, sem motivo mas que segue em frente. Prefiro minha falta de sono e minha vontade de criança.

domingo, 24 de outubro de 2010

É do lado de dentro que vejo pelo lado de fora



Daqui, preso aqui dentro, só posso imaginar a minha cara vista dali, do canto da sala, ao lado do aparelho de televisão. Cara de quem nem se lembra o que comeu. Cara de quem ainda tem fome e que não tem comida o suficiente. Ah, se dali pudesse olhar, acenar e dizer em voz alta tudo o que penso e sinto! Faria ali, do lado de fora, essa cara também pelo lado de dentro. Meu reflexo não é mais daquilo que fico aqui, imaginando. Sou a voz que registra o que vejo sem ao menos ser autorizada pelo meu próprio eu. Eu, a voz, que vos falo, faço aqui uma nota sobre meu rosto: se vocês pudessem ver como ele estava a pouco! Não é sono, tristeza, monotonia, nada disso.  É uma cara dessas que nos pegamos de vez em quando. É o reflexo que só se vê pelo lado de fora e que existe somente aqui do lado de dentro. Complexo? Não, é reflexo puro. Daqui do lado de dentro vejo tudo como acontece do lado de fora. Mas só vejo. Ainda não sei me desprender e caminhar entre tantos lados meus.

Imagem de Nunes de Freitas. Conheça mais em seu Olhares.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Terça-feira, 19



Tomo meu café como quem acende um cigarro. Na cabeça, movimentando-se com os dedos, os pensamentos mais clichês para o dia seguinte. Antes, chego em casa. Tomo meu banho, pego meu beber e comer. Ensaio deitar, cumpro com responsabilidades para o dia seguinte. Amanha, quarta, quero voltar pra casa, trocar de roupa, caminhar. Na volta, pão quente da padaria. Banho. Mais TV, pra sair da normalidade absurda de todo dia. Nada de jornal, pra não ver absurdidades; pensá-las já deixei há certo tempo. De noite, fizer noite como de hoje, contarei as estrelas. Tentarei. E me sentirei, novamente, sozinho. Saudade do princepizinho, e dos campos de trigo, não porque lembrarão seus cabelinhos loiros, mas porque lembrarei da minha cidade natal, toda cercada de trigo no inverno. O vento e o barulho dos caxinhos secos do trigo, já no final para colheita. Então eu entro. Fecho os olhos, mas as estrelas continuarão lá, sabe porquê? Por que elas não estão no céu. Elas tão no coração que, uma vez aberto, empresta seu espaço para guardá-las. E o meu é dum tamanho que ainda não deu pra contar.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Jardineiro do universo



O rastelo é a desculpa que o jardineiro usa pra riscar a terra e reorganizar o chão. É com ele - e com suas botas de borracha - que tudo fica novamente em ordem, na ordem que se quer. É, antes de tudo, atitude egoísta: o solo todo arrumado fica como o coração do jardineiro, na medida exata do seu Ser. Como sempre tem um "mas", o nosso se refere à boa fé e trato para com aquilo que queremos ver refletido. A arrumação da natureza serve como metáfora para nossa própria organização, assim como sua harmonia no ambiente refaz nossa paz interior em nosso contexto exterior. Fato é que meu jardineiro do universo ainda não sabe disso tudo. Um dia vai saber; por hora, ele rastela e vê tudo ficando arrumadinho. Mas o faz, especialmente, pois quem o faz junto leva-o de mãos dadas para um canto da saudade, cantinho jamais ocupado pelo esquecimento. Se hoje são os jovens que adormecem, amanhã - você verá - as crianças sobrarão em amor por todos os cantos de cima da nossa terra.