quarta-feira, 12 de março de 2014
Pequena flor de plástico
Chegou como todas chegam: colorida, cheirosa, prazerosamente. Mas aos poucos foi-se desbotando. Aquela pequena flor de plástico não sabia mais como respirar. Foi dado água, adubo, carinho e músicas do Nando Reis. Continuou a morrer. O que aconteceu, não sei. Mas suponho: plantas de plástico não precisam ser aguadas, adubadas e cativadas. Muito menos escutam música. Mas aquela pequena flor era falsa. Tão falsa que sequer falsa parecia. Fez-se verdadeira somente para falsear sua essência. E não é que ela floreou? E deu cheiro a danada. E cantava aos fins de tarde. Foi então convidada a ser entregue a alguém como prova de amor. -"Mas... eu não posso nem comigo!", e suspirou em lamento. E foi assim que foi deixada ali.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Coisas de menino
Algumas coisas de menino por vezes voltam: aquela vontade de jogar pedra nos cachos de abelha, passar rosnando frente a um portão com um cachorro bravo, subir numa árvore enorme e jogar balões d´água nas pessoas que passam embaixo dela, esperar numa esquina e gritar quando alguém fizer a curva, tocar campainha e sair correndo, gritar nome errado bem atrás de alguém. Como se fosse pouco, ainda escondia o último danone bem no fundo da gaveta de verduras, roubava o último pedaço de chocolate do guarda-roupas alheio e desligava a TV com o volume no máximo para assustar quem a religasse. Ainda esvaziava os pneus dos carros e bicicletas, apanhava as últimas carambolas da vizinha da minha vizinha, entrava de noite no quintal ao lado para chupar jabuticabas e atravessava o quarteirão pelos muros das casas comento toda fruta madura que achava. Quando havia, pulava do alto das árvores sobre os montes de areia e transportava quase todos os tijolos de uma construção para outra em cima da frota composta por meu caminhão e de meus amiguinhos. Já eram minhas pequenas vinganças contra o mundo mau que eu ainda teria que enfrentar quando moço.
img: André Gandolfo
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Um banquinho e uma fita crepe
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terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Mensagem para o ano todo
Depositei em 2013 enormes esperanças em troca de singelas promessas. Realizei mudanças, investi nos meus sonhos. Terminei de passar aquele café para dois. Estive ao lado de quem colori e a tenho borrado com aquarela branca desde então para tentar reparar um traço solto. Tenho lutado: busco o equilíbrio. E caio exausto todos os dias por isso. Abro a porta. Novamente está aquela bagunça em casa. Parece que o menino Santiago sempre entra primeiro e desmorona aquilo que o moço havia empilhado. Com esforço tenho colocado atenção, carinho e bom humor, um sobre o outro e aos montes - sempre dentro das minhas limitações, que são muitas e precisam ser toleradas. Senhor, piedade! Sou humano, imperfeito, e traço meu caminho com um amor enorme em meu coração. Tenho feitos gigantescos para tentar abrir os olhos que me desdenham e buscar um sorriso. E tenho batalhas épicas para parar aquele anseio de esperar sempre por aquelas reações que estão se repetindo com tal frequência que não entendo, desde aquele dia inesquecível. Pouco a pouco o único vidro que separa os olhares e corações vai-se riscando. E riscam do outro lado, não adianta eu esfregar de cá. Minha meta 2014: inventar uma máquina de tirar riscos de vidro.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
O inverno trouxe mudanças
Quem já olhou para um Ipê Branco florido sabe: logo após a olhadela ele já está quase todo sem flor. É uma das coisas mais lindas e mais efêmeras que existem. São mudanças rápidas da natureza. E nossa natureza também muda, tão rápido quanto. Esse inverno trouxe mudanças que há tempos estavam programadas para acontecer. Eu também mostrei minhas flores brancas, balancei com o vento e joguei tudo ao chão. E percebi o quanto dói esse processo e o quanto é belo. O que fica é aquele chão pisado e todo coberto pela mesma beleza que se via agitada ao vento. O que se guarda é a certeza de nova florada em breve. Como é lindo e triste isso, de ser e ir sendo sempre novos galhos cobertos de branca novas lembranças e vivências caideiras. Foi em junho que eu casei.
A imagem é emprestada de Marcos Andersen.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
"da janela lateral' - Meu primeiro Ebook
Olha o Moço Santiago se metendo a escritor! Amigos, no meu ebook fotográfico há uma porção de textos, não tão inspiradores quanto os do Velho, mas já um começo para aquele menino que sonha em se tornar um moço forte. Espero que também gostem!
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"da janela lateral" também está disponível no Scridb.
BOA LEITURA!
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Desse tempo que acordei com saudade
Era um tempo desse que se refazia aqui dentro. Tempo de chuva, mas tempo de alegria. Tempo de brincadeiras com o que a vida dava de graça e que não precisava ligar na tomada. Com sorrisos que vinham de cabelos molhados de suor - de tanto correr. A saudade da infância é um pouco de tudo e de tempos em tempos vem me revisitar. E não importa se chove forte nos olhos ou se pinga longe no mar essa água salgada: ela insiste em bater nas vistas. Se exibe holiudianamente e se reprime, some. Por vezes vou até a padaria buscar essa infância e a pego comendo uma bomba de chocolate enorme. Há outros indícios: água no chão do banheiro, talheres e louças sujas na pia, meia enfiada dentro do tênis, televisão desprogramada e som alto, além de todos os tapetes sujos e do chão da casa inteira cheio de terra roxa. Roxo, aliás, estão as pernas e braços, além de arranhados. Mas roxo mesmo fica a saudade, que bate forte tem dia.
foto: Crianças de Campo Alegre do Fidalgo, sertão do Piaui, durante a chuva que marcou a chegada do "inverno" de lá, em janeiro de 2013
domingo, 14 de abril de 2013
Céu carregado
O céu fica carregado quando algumas tarde de outono terminam seu dia. São dias especiais, em épocas específicas, tempos que trazem manhãs difíceis de prever. Por isso os cantos dos pássaros mudam, as cores têm menos ou mais saturação - depende do momento -, o contraste da vida vai diminuindo e os dias passam a parecerem-se todos. Aquela música que tanto te alegra causa o mesmo efeito que causa um olhar desavisado para a pia suja que a gente não se importa em lavar. Os soluços, suspiros, bocejos tornam-se um bom dia na boca de um estranho e o chocolate já não adoça mais o leite. São dias assim que lhe mostram a passagem do tempo. Épocas nas quais viver toma um novo sentido e um significado mais próximo do existir. São tempos que se repetem de vez em quando. São dias que eu gostaria de entender seus significados.
domingo, 10 de março de 2013
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
O abraço não dado
De todos os meus abraços, o mais forte foi aquele não dado e, no entanto, é dos mais presentes na minha alma. Ele impregna dentro do espírito e não sai nas trocas de roupa. Ele tem demonstrado que mais forte que o entrelaçar de braços é o encontro das almas. E que não importa o quanto se aproxime ou se afaste novamente, ele permanecerá ali, presente. Em sua ausência ele é substituído por tantas outras coisas: expectativas, lembranças que culminam no não abraço, tempos convividos em comunhão e mesmo por aquele olhar duro, carregado de sorrisos posteriores que afagam o pior dos dias e das noite. Emprestar os ombros não substitui esse abraço não sentido, esse calor não trocado nem os pés não pisados pela ansiedade do encontro dos corpos, apenas reforça ainda mais essa falta. É uma falta que ignora sua natureza, pois se faz mais real e presente que tantas coisas ao nosso redor. E se abraçar o próprio corpo for uma forma de trocar esses sentimentos não vividos, que o melhor exemplo seja dado durante o banho: local de presença forte daquilo que falta e falta daquilo que ficou no anseio. É hora de lavar não o corpo, mas as sensações e desejos que impedem esse abraço não vivido.
domingo, 18 de novembro de 2012
Salada de professores
Às vezes, pra quebrar a rotina, fazíamos festinhas caretas na sala de aula. Era o finalzinho do Ensino Fundamental, mas lembro-me que mantivemos essas atividades também no Ensino Médio. Uma dessas festas era de Salada de Fruta: um vinha com a banana, outro com a uva, maçã, pera... e, quando montávamos tudo numa bacia de alumínio da cozinha da escola, estava ali nossa salada. E que salada. Não digo gostosa, já que tenho minhas predileções: não gosto de uva com semente, nem maçã com casca, também prefiro a salada regada com tubaína e não com suco de laranja. E jamais com creme de leite ou leite condensado. Mas hoje gosto mais da salada de fruta que me traz um breve tempo do passado pra mais perto, pro meu presente. Me lembro, antes de tudo e de todos, do professor Luís Carlos, de Geografia. Um homem sério em sala. Palavras bem colocadas e bem entonadas. Mas lições que não me esqueço: humildade, sabedoria... coisas que, quando adolescente, nos fechamos para reconhecer nos outros. Relembrando carinhosamente essas aulas, hoje encontro grande passos metodológicos em suas palavras. Devaneios que passeavam pelos diversos tipos de conhecimentos e materializações deles derivadas. Sobre a salada de fruta, fizemos, certa vez, em sua aula. Me lembro que falávamos que não era atraente o fato da maçã e da banana amarelarem. Ele sorriu, e então nos ensinou um segredo para que isso não acontecesse. Luís Carlos já se foi. Há uns 8, 10 anos. Mas eu, ao usar desse segredo agora há pouco, o trouxe bem vivo um pouco mais pra perto dessa distância toda.
domingo, 11 de novembro de 2012
Sou exatamente igual a você
Vi, nesses anos, tantas paisagens com esses meus olhos... quanto você, que trocou a imagem de fundo da sua área de trabalho do computador. Conversei e ri tantas vezes com desconhecidos... quanto você, com seus mesmos colegas em suas redes sociais na Internet. Olhei, maliciosamente, para tantas pessoas interessantes na rua, nas calçadas, nos ônibus... quanto você, que cutucou alguém no Facebook ou coisa que o valha no Orkut. Toquei tantas peles e cabelos: macios, com marcas de expressão, cheirosos... quanto você, com seu mouse e seus cliques nos botões esquerdo e direito. Senti em meus ouvidos tantos suspiros e calor... quanto você, com suas caixinhas de som e coolers de resfriamento. Falei alto, ri alto, gargalhei tanto... quanto você, e seu microfone embutido na tela do notebook. Abri minha porta, o portão de entrada do prédio e meu peito para tantas pessoas... quanto você, ao abrir suas novas mensagens de email ou mensageiros instantâneos no celular. Passei tantas horas admirando aquele rosto lindo da nova paquera, como o cabelo dela mudava de cor ao longo do dia, e como não tem fim tantas caras e expressões com o cotidiano que ela faz... quanto você, e sua foto aberta estática na nova tela de LED. Aprendi novas coisas, um novo suco, conheci uma nova comida, tantos sabores... tanto quanto você, e seus novos atalhos no teclado e funcionamento da bandeirinha do windows. E resolvi seguir conselhos, palavras amigas, me calei e escutei, pensei e ponderei tantas vezes... quanto você, que curtiu aquele desabafo tolo nos Feeds de alguém igual a você. Somos exatamente iguais, mas separados por nossos viveres.
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