Esse é um auto-retrato de Magritte, de 1964. Esse também é um velho amigo meu que procuro. Ambos, se apresentam diante meus olhos e me perguntam algo como "quem sou eu?". Da pintura, fica seu mistério. Do meu amigo da infância, cujo rosto hoje é esquecido, fica a vontade de reencontrá-lo. Lembro do seu nome: Flávio. Flávio, seu Master System e Sonic, seu segundo jogo preferido. Quando criança não temos certeza de nada. Ele se foi, mudou quando a família foi-se embora da minha cidade natal. E de lá - sabe Deus onde - nunca mais voltou. Vez ou outra me pego pensando nesses que passam pela beira da estrada seguindo por um rumo qualquer. A maioria se perde. Um grande amor, certa vez, passou dessa forma. Mas fui mais esperto: já velho, agarrei e não soltei jamais. Mas me ressinto com o peso de, criança, não ter tido a mesma força para alguns que tenho carinho ainda guardado. É como se eu (de certa forma) passivamente deixasse meu destino se alterar por vontade dele. Sei que parado aqui, no alto do trigésimo andar, preso no elevador que sobe ao 31º, olho para baixo e vejo os andares que passaram cada vez mais distantes... tem dias que isso me dá vertigem.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Perda da eternidade
Naquele dia ela decidiu mudar a vida dela. A troca de tudo aquilo que teve valor em sua passagem com um querido amor por algo que sequer ainda acreditava veio motivado pelo acaso. Andar sem sapatos, olhar pra tudo como se nada lhe fosse desigual, era apenas uma ação natural, sem premeditação ou sentido é o que de mais natural lhe convém fazer. Mesmo que o caminho fosse o mesmo que sempre fazia pra ir pra casa, agora tudo soava naturalmente novidade. Alma nova, lavada e ainda indolor. Sua escolha por buscar outro caminho era algo que lhe doia, mas cuja decisão fora tomada, sem volta. De agora pra frente, a luta era não retomar seus antigos sentimentos bonitos por uma pessoa outrora muito amada por ela. Mas como enfrentá-la? Como vencê-la? Sua única certeza era aquilo que via: caminhos que poderiam ser percorridos, risos novos que deveriam ser dados e abraços novos com beijos mais calourosos. Seu único erro foi pensar algum dia que teria que ser pra sempre. Por isso hoje sofre com a interrupção dessa eternidade que lhe puseram diante de seus sentimentos.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Reencontro
Depois de muito tempo ele foi ao reencontro dela. A espera na chamada telefônica, o "pode passar" que, ligeiramente, soou ter um sentido contrário. Os cruzamentos, as ruas, a procura pelo número da casa e a indicação de referência: "a casa verde na esquina". Acontecem os segundos atemporais, marcados pelas batidas do coração num frenético pulsar. O lapso de tempo é rompido. À primeira vista, o sorriso leve; logo depois o abraço delicado, a falta de paixão no contato por ela. Ele a repreende em ato, puxa seu corpo novamente contra o seu no instante em que um afastamento se anuncia. Ela cede e mais firmemente entrelaça os braços. Pouca coisa. Ele silencia, busca sentir e entender se o tempo dela também está contato pelo órgão que trabalha em virtude de uma paixão. Eles entram, tomam café. Mais gente se aproxima para cumprimentá-lo, sempre demasiadamente educados, demasiadamente amáveis e demasiadamente distanciados de uma vivência que não aconteceu. Então ele se sente querido, e pede baixinho para que o próximo lapso sirva, enfim, para aproximá-los definitivamente.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Último encontro
Ela não pôde ver meu rosto pelo outro lado da linha. Ouvi seu desabafo, sentimentos há tempos guardados rancorosamente. Como consegue? Sempre disse pra não fazer assim. Mas daquela vez entendi que era séria a coisa, o tom de voz, a ligação curta, os motivos inexplicáveis. Era um fim de dois, tentativas fracassadas de um homem e de uma mulher. Tentativas. Eu não tentei. Vivi e quis viver mais, pra sempre, como dizem as poesias. Mas elas não estavam do meu lado. Essa história de que só há amor se houver dor/não sei se concordo. A dor aumentava enquando sentimentos que não expressos em alegria eram, um a um, empilhados em um coração de carne. E isso era amor? Creio que não. Era, talvez, amor ETERNO. Como posso saber? Criança, ali enquanto ouvia aquele último desabafo, compreendi que se guarda do outro aquilo que é importante, aquilo que significa compartilhar. E uma pessoa que compartilha toda uma profusão de sentimentos sem nexos pretende sentir um pouco mais do que amor. Se a poesia estiver minimamente correta, quanto maior a dor, maior (será) o amor (mas que doeu doeu...).
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Primeiro Encontro
Distante, ela sorri. Próximo, ela retribui mais uma vez o sorriso. Ele pensa o significado de um sorriso. Conclui que um sorriso é um sinal de aprovação ou ao menos algo que o valha. Ele se aproxima e invade aquele espaço mínimo que todos têm, o limite no qual, se ultrapassado, ficamos sem jeito. Passa então a mão pelas suas costas e sente um leve afastar. Não pergunta o nome dela e solta algumas palavras ao pé do ouvido que serão mal compreendidas. - "Você tem um sorriso bonito. Será que eu poderia mantê-lo em seu rosto depois que sairmos daqui?". Educadamente, ela responde que já está sorrindo ali. Ele consente, mas abre que ali ele sabe que ela está sorrindo, e que havia dito se depois daquele momento ele poderia manter aquele sorriso. "Eu namoro", ela diz. Ele oferece então um café, e deixa claro que quando se namora e se sorri assim, talvez, seja um momento no qual se pode dividir experiência, carinhos e afetos, criar quem sabe laços de amizades. Ele não quer perder aquele sorriso. Mesmo depois da última tentativa, ela se eleva a um status alto de popularidade argumentando que, caso vissem-na com outro em algum ponto daquela grande cidade, poderia ser mal interpretada. Ele se afasta sem lembrar da última palavra que havia dito. Apesar da contradição dos sinais e intenções dela, ele leva a boa impressão deixada pela educação com que ela lhe falava.
*inicio com este texto a Série "Encontro", sobre encontros não vividos, mas que seriam possiveis existir. E, caso seja um encontro que tenha realmente acontecido com você, leitor, compartilhe!
*inicio com este texto a Série "Encontro", sobre encontros não vividos, mas que seriam possiveis existir. E, caso seja um encontro que tenha realmente acontecido com você, leitor, compartilhe!
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Tempo de espera
Ela chegou da França e trouxe os trejeitos de lá. Ele a conheceu no café do aeroporto, e a observava nos olhos enquanto ela arrumava, meio sem jeito, aquele chapéu última moda de tantos zeros. Quando percebeu que não daria conta do movimento, retirou o chapéu e o colocou sobre a mesa. Girou, então, sua cabeça soltando o cabelo preso por baixo daquele feltro. Olhou para os lados a procura do garçom; seus olhos cruzaram com os dele. Desviou o olhar atraída pelo movimento que lhe estendia o cardápio. Abriu o cardápio, pediu um café e sorriu com o canto da boca. O que pensava? Porque sorriu assim, evitando os olhos dele a partir dali? Agendas cheias, viagens marcadas, rotinas tão distantes que não daria certo qualquer relação longa mesmo que todos os olhares fossem correspondidos. Entretanto, instantes de carinho e atenção passageiros foram trocados por um sorriso de canto. E, ao abrir mão disso, um gole de café morno tomou o fugaz lugar de interações - ainda - humanas.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Dois pontos. De-vista.
Cresceu com livros pela casa, no banheiro, nos quartos e nos ouvidos: ainda sem saber ler, sua mãe os cantava e eles gravavam para o mais novo dos dois relê-los desta forma sempre que quissesse. Aprendeu a gostar dos livros. E por gostar, aprendeu a se dar com eles. Findado o mestrado do mais novo, que crescera tão rapidamento quanto uma Era, ao devolver os livros que utilizara na pesquisa, a bibliotecária ficou brava porque ele os tinha rabiscado, sublinhando trechos que achava importantes e pondo anotações aos lados em branco. Chamando a atenção disse: "além de estragar, você diminui o tempo útil deles". Note que ela vê o livro como objeto inanimado, com valor monetário agregado, e que deve dar de comer a uma estimativa de retiradas do acervo. Foi um choque. Jamais ele pensou por esse lado, afinal, aprendeu com os livros que eles precisam conversar com a gente também. Eles levam todo um universo de imagens, sons e sentimentos e, em contrapartida, pedem que os suje, amasse, rasure, escreva sobre eles. A relação com o saber é mútua, vai do livro para aquele que o lê, e desse último para com o livro. O livro - certa vez me ensinou ele mesmo - seria triste se fosse visto como produto que não pode desgastar. Ele se realiza à medida que se rabisca.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Riscos do caminho
Caminhante, não há caminho. E os caminhos, quando feitos, são de pedra, José. E então é fácil perceber que não há amigos príncipes, com espinhos, flores ou vinho tinto. Mas havia uma música, me lembro, de quando estava à toa na vida. Sem ninguém me chamar, nem ao menos o samba voz do morro, sim senhor, ela tocava. Calma, fazia mirar um exemplo de vida, de mulheres distantes que não se entregavam ao tempo. Tempo e caminho. Levando, velho que sou, bem cedo. A criança também se levante cedo. Antes de passar pela mocidade, pensava que isso poderia ser coencidência. Talvez seja. Mas percebi nessa mocidade que os riscos existem e não tocam música. Percebo que convém encará-los, aqueles que eu escolher, dançando a música deles. Paradoxo não, metáfora. Encaro os riscos que encararem minha realidade. Daqui, com tão pouco tempo da vida rápida que passa, me parece haver muito para se ter tempo suficiente para se viver. E fica a falta de memórias menos abstratas, sentimentos mais confusos e caminhos com mais riscos. Olhando agora, de longe no tempo/espaço da vida que levei, percebo.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Seu sorriso
Desde aquele primeiro sorriso seu o tempo continua sua sina: correr ora vagarozamente ora demasiadamente acelerado. Em ambas situações, às vezes, cruzo com um motivo ou outro que me traz aquele instante belo para diante dos meus olhos, como se fosse um passe de mágica. Mas eu não sou mágico, então quero que saiba que não há magia nesses instantes, apenas saudade. É como se você estivesse ali, na minha frente novamente. Eu não sinto nada além de uma calma saudade, que se instaura sem pressa e toma forma bem definida, que fica estampado no meu olhar brilhoso cheio dáguas e no sorriso meu sem jeito que ninguém percebe. E se perguntam: "porque você está quieto?", nas raras vezes que me entrego, eu nego. Explicar levaria muito tempo, e já que ninguém saberia reconhecer seu sorriso - nem atribuir o mesmo sentimento que somente eu sou capaz - então prefiro me esquivar. Seu sorriso continua presente em mim, mas agora na boca de outra pessoa.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Foco
Todos me pedem foco, menos aqueles que não. Óbvio de mais não é essa primeira frase, é aquilo que querem de mim: meu sangue. Mas só terão se for assim: se eu der! Se não, não. Óbvio! Nem tanto. Já me dei diversas vezes e fui demasiadamente cobrado além do que poderia corresponder. Ou do que eu queria COrresponder, já que respondo melhor aos seus impulsos mais instintivos, naturais. Pouco me fiquei preocupado antecipadamente ou posteriormente pelas suas convenções sociais, morais, éticas, psicológicas, religiosas, metodológicas, enólogas, que seja. Que se lixe isso tudo. Foco desembeleza o passarinho presente na minha mente. Ele é bonito assim, em movimento parado num instante permanente; realidade apreendida com a percepção ampliada pelo resultado da prática fotográfica. Já que minha mente humana tende a completar o abstrato, forma pregnante repugnante que suga minha sensibilidade, não quero então você. Quero é o que eu sinto por você. O desfoque do que sinto é muito mais sensivel e gostoso do que o foco do que percebo: coisa acabada e só.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Pendure
Sabe aquela folha em branco na qual você não consegue escrever nada? Tenho tentado há horas pendurar algo nesse varalzinho ai e não consigo. Queria criar uma metáfora, como qualquer uma dessas tantas que tenho feito, mas nada sai. O que quer sair é outra coisa... Mas, por respeito, praticamente calo o velho pra ele não dizer o que pensa. Velhos são assim, dizem como se nada tivesse peso ou consequência. Tento ponderar, mas vem o menino de nós dois e fica apertanto a tecla que faz o hominho do jogo pular, pular e pular. Então preciso voltar o texto e corrigir. Vai, volta... Por exemplo, angústia. Como pendurar isso ai? Esse pregadorzinho não segura. E se por alguma felicidade? Os arames brigariam por ela e eu voltaria com quase o mesmo problema, só que agora sem onde tentar pendurar. Assim tanto um quanto outro ficam fora do varal, na bacia que levei até lá. Essa bacia, pra minha infelizmente, é minha parte de dentro. Tudo fica dentro. E hoje nada quer ser pendurado. Quando levo pra estender, veja que azar, volto com a roupa suja.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
De onde vem não sei

Cabelos agitados ao acaso. Negros, mas parecem iluminar.
Seus ouvidos, autivos, prospectam antes.
Para o que, não faz diferença. Não são jaboticabas.
Frescor sente. Perfume para o amanhecer.
Na lingua: sopa de músculos.
Pescoço cilíndrico, quase seu pulso.
Ombros duros. Pele e osso revestem.
Braços sem caldo, punhos cerrados, mãos delicadas, não se sente.
Não traz em seu seio alimento algum. O que traz não alimenta.
Na cintura, cordões sustenta. Calça frouxa, leve. Mais barata.
Joga assim, caudalosa. Mas de onde vem eu não sei.
Joelhos semiflexionados. Querem saltar os ladrinhos ímpares.
Pés como que feridos, cambaleiam sua anca farta.
E por dentro... bem, por dentro é só um coração. Resto oco.
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