Se pego aquela moça alta, te cutuco com ela, estrelinha que não cai. Só pra você ver que não adianta ficar ai parada no céu. É primavera, logo as flores e folhas caem, menos tu. Porque não aproveita e cai junto? Assim desce acompanhada, lentamente, até o chão que lhe acolhe. Sei bem que é medo, puro medo. As que aqui comigo tiveram me contaram. Elas são corajosas; belo dia - ou noite - nada disseram: cairam! E aqui vieram pra não voltar. Mas como tem tantas iguais no céu, daqui desse pedacinho de terra seca, tu pareceste só mais uma, e é assim que será pra mim, mesmo caindo aqui. Daí de cima, porém, sei que sequer daqui de baixo tens visão. Vale a pena, então? É... esses pensamentos... Mas sabe, estrelinha que não cai, caia; veremos depois se talvez não torna-te desejo de alguém. Será bem recebida, é verdade, mas logo eu a colocaria de novo no céu, pra cair em outro lugar. Os lugares são tantos em que caimos, não é verdade? Destes, só os que caimos mais calmamente e aconchegadamente nos lembramos. E talvez seja melhor esta lembrança boa do que o fogo de cair cadente.
domingo, 25 de setembro de 2011
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Dure pouco, mas pra sempre
Não dá pra falar que vou lembrar de você por todo minha vida, vidinha curta, que isso será minha lembrança sobre um dos meus namoros que pouco significaram. E nem quero. Mas é importante que lembre do meu sentimento por você e o que isso me significava nesse pouco tempo que passamos em minha casa. Tampouco desejo um banquete gordo e indigesto para o natal ou uma virada de ano numa praia limpa qualquer à prestação. Mas que não perca a vontade de comer ou que deixe de conhecer novos lugares e pessoas por tão pouco. Seria importante conversar menos, não falar só pra ter assunto, mas utilizar as palavras para coisas mais úteis e colocá-las com precisão para despertar o devido sentimento. Assim como prefiro ignorar e não dar valor algum pra alguém do que bater boca com essa pessoa que quase nada significa pra mim. Vale mais aquela paixão sinceramente fútil, efêmera, volátil, de uma noite, uma garafa de vinho e uma taça quebrada, do que o amor meloso que desperdiça meu tempo com pequenos atos encenados pra agradar a quem quer que seja. Prefiro lembrar do calor que queima minha pele e me marca do que daquela camiseta fresca, barata, que rasga fácil e que logo troco por outra. Assim como sentir o frio que me oferece um vinho ou um café me aquece mais minha alma do que aquele cobertor barato que lavo antes de todo inverno. De manhã, toda manhã assim, prefiro sentir sua ausência do meu lado enquanto estás fora do que olhar pra sua cara lavada e mal-humorada. Que o objeto outro me perdoe, mas não abro mão do que está no meio das nossas significâncias baratas.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Quantos autoretratos são precisos?
A cada dia, a cada nova coisa que acontece, enriquecemos. Nem sempre percebemos. E penso se não é desperdício de neurônios antes de dormir parar pra pensar sobre o dia. Tento muitas vezes não compreender o que se passou, ma entender como eu lidei com tal situação. Ver qual de mim tomou a dianteira, lidou com a situação, o que aprendemos e como deixamos o dia seguinte preparado. Na maioria das vezes, percebo, fico como que sentado observando a incapacidade de me definir. Rimos às vezes. Mas também, às vezes, percebo que estou preso no caminho e que tal definição é impossível. Por vezes não consigo me reconhecer nas situações que vivo. Frustrante. Quando chego a um ponto assim, relembro como tenho articulado as coisas no eu que apenas eu conheço, que é o feito na minha pequena historinha de vida. E percebo que eu mesmo não me reconheço às vezes. Compreendo que situações me moldam e que eu aceito ou não entrar nesta forma. E quando não aceito, eu luto pra que eu caiba no espaço que sobrar. E fico bem, sem as projeções de outros pra que eu aceite como são. E sempre ouço àqueles que podem dar uma visão de fora. Não busco traçar o que sou, mas tento saber por essas vozes com quem eu lido quando estou sozinho.
A imagem é um autodaguerreótipo.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
O sonho
"Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas".
Clarice Linspector
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Pode não ser só comigo
Ao abrir os olhos notou a respiração ofegante, e o ambiente, que era escuro, aos poucos ia se revelando em contornos e traços envultecidos. Pouco a pouco foi se situando, percebendo o local que estava, a hora quase certa e a temperatura que fazia. Um pouco mais de pensamento foi preciso pra perceber que despertara. Mas havia mais. Ironicamente o sonho se tornou realidade. Nêle, estava trabalhando quando colegas notaram que sua pele brilhava. Sentiu o suor começar a escorrer, como quem nota o sangue antes da dor do corte, e então lhe perguntam: "Você está bem? Parece que está suando muito anormal". Ele, pressentindo o porvir, adiantou sua psicologia e se preparou, advertindo aos demais presentes: "Estou mesmo, é verdade.. não consigo mais o controle de tudo, vou desmaiar". E ao desmaiar em sonho este acaba acordando do sono, interrompendo abruptamente o sonho e seu contexto freudiano. Acontece que sim, o sonho interioriza situações de estresse que assustam no sentido de algum dia não conseguir mais se centrar e ponderar. Mas dai para acordar ao desmaiar é demasiadamente curioso. Fica a dúvida, como que roteirizada hollywoodianamente, se o desmaio levou do sonho à realidade ou se a realidade já se transformou em sonho. E pode não ser só comigo.
A pintura é de Füssli, 1781.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Pra minha Dulcinéia del Toboso
Sei que vê esse meu jeito de pessoa liberada, mas não sabe que por dentro não é isso, eu não sou nada. Se tenho ares de serpente, em casos de amor sou pequeno, sou carente, sou tão frágil, sonhador. Sei que me pinto e me disfarço, sou companheiro do perigo; até me solto em sua festa, mas sozinho eu não consigo. Digo coisas que não faço e faço coisas que eu não digo. Quero ser o seu amado, não somente seu amigo. E toda vez que eu sinto um beijo seu na minha face, eu luto pra manter o meu disfarce e não deixar tão claro que te quero. Cada vez se torna mais difícil meu teatro. Não da mais pra fugir do seu contato. Estou apaixonado por você.
Obs: Escrito assim, a música popular também toma uma sensação boa. A música "Meu disface" é de autoria de Carlos Colla e Chico Roque
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Há um segundo tudo estava em paz
Quem conhece as lendas do bom blues sabe que é na encruzilhada que se faz o pacto com o diabo. Ali, cava-se um buraco e deposita-se alguns pertences: são as batidas na porta do inferno. Vertida a alma ao diabo, o blues então corre solto pelas veias do vendido. Metáfora perfeita para nossas decisões: as mais dificeis - nos ensinam - custam coisas que amamos e não são desfeitas. A vantagem é que dali pra frente o sucesso é absoluto, até que o diabo reclame sua alma, vendido no momento do pacto. Verdades: a encruzilhada guarda segredos pois o homem não quer um caminho, quer vários. Nela enterramos pedaços de nós porque queremos partes inteiras que não podemos ter. Nela fica o que mais amamos. Nela voltamos sempre. Pena haver apenas uma alma para se vender.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Auto retrato
Se auto retrato, não saberia definir o velho, nem o menino, nem o moço. Não saberia como falar sobre eles. E se o faço, é com bastante timidez. Fato é que este post é para me conhecerem um pouco. O Velhosantiago é este ai, do daguerreótipo acima. Sim, não é uma fotografia, é um daguerreótipo. Não é uma foto antiga, pelo contrário, é novíssima, feita em julho de 2011 por uma técnica de 1837. Raridade, não? Bem, desde pequeno durmo tarde. Mãe que tenho bem que tentou que tomasse jeito esse moleque - "fecha os olhos que o sono vem". Mas... fecho os olhos e pipocam sonhos realizados, vontades deixadas pra depois, realizações que me alegram, minha camiseta nova que quero usar amanhã. Sou do impossível ao absurdamente simples. Da leitura fácil à incompreensível (que abandono quase de imediato), dos filmes em fullhd ao nosso querido Corinthiano, o Mazzaropi. Sou da água ao vinho, seco, do café - este sempre quente, claro - ao pão com manteiga que gosto muito. Escrever não é um dom, nem exercício, como pensei que seria ao criar este blog. Tornou-se fuga (sim, Pipa, desta vez fuga). Do quê? Deixo assim, subentendido. Por isso deixo a porta sempre aberta. Por que não tem hora pra ser Velhosantiago.
Ps: notaram a chícara de café que seguro na imagem acima? Detalhes... e hábitos que vocês conhecem mais do que ninguém.
Ps: notaram a chícara de café que seguro na imagem acima? Detalhes... e hábitos que vocês conhecem mais do que ninguém.
domingo, 21 de agosto de 2011
Planos pra quando o amanhã chegar
Fazia exatos 22 dias que ele havia comprado aquela garrafa de vinho que tanto gosta. Estava fechada há 18 quando entendeu que deveria abrir. Pizza de marguerita, um clássico no bluray e a noite foi feliz. Apesar do calor. Planejador, escolher a pizzaria a dedo, o filme após 1h olhando aquelas prateleiras deixadas de lado, como se não tivesse mais valor, foi como um exercício de sobrevivência. Como treinam os exércitos dias e noites na selva ou deserto frios, eu treino com esses prazeres que a modernidade, a pizzaria delivery e a locadora no quarteirão de casa me proporcionam. Dois dias depois veio o frio. A garrafa já estava vazia, ainda há dois pedaços de pizza na geladeira e o filme ainda na lembrança. Pra valer o frio que chegara, resolvi esquentar meu capuccinno. Precisei ponderar pra entender que por mais que a gente plenaje, se esforçe e tenha prazeres, sempre alguma coisa ainda fica pra depois. Neste caso foi o frio. Mas tenho medo que essas passagens como que bobas possam ser sentimentos ou desejos por vezes anulados inconscientemente. O frio demorou dois dias... Tenho medo que algumas coisas custem uma vida toda pra chegar.
domingo, 14 de agosto de 2011
O que você vê, saudade?
Na imagem acima, o que vê? Se bem atento, creio que a maioria pensará algo como um anjo ajoelhado e uma mulher santa, Maria provavelmente, ao fundo uma provável janela, com uma vista bonita. Se culto, logo dirá - "é um Botticelli, claro!". Em todo caso não credito que a resposta seja algo como - "vejo cores, vejo traços que formam figuras, vejo disposição das formas e das cores". E é, justamente, apenas isto que se vê. Não se vê o que se vê, tais figuras não estão ali. Mas as vemos por vemos coisas que nos fazem enxergá-las. Ver, neste caso, é olhar para o que não está lá. É perceber um mundo que não é o próprio mundo, mas uma maneira de mostrar aquilo que se faz ideia. É re-apresentar algo que de fato existe ou existiu, presumo. Quem nota uma ausência - pura sensibilidade - enxerga algo que não se vê. Vê que faltam tais formantes e, justamente por não ver, percebem aquilo que nasce da diferença: o sentido. Faz sentido não saber de uma pessoa e notar sua ausência justamente por não estar lá aquele traço, aquela cor, aqueles textos ou imagens que sentimos nascerem dela. Anunciamos, assim, nossa saudade. Para a semiótica, só temos o sentido de saudade porque temos sua diferença. E é ai que entendemos o que não se entende: se saudade é "Recordação nostálgica e suave de pessoas ou coisas distantes, ou de coisas passadas" como se convencionou (lembrado pelo Michaelis), como explicar a saudade que sentimos de quem está dentro da gente? Tão mais perto impossível.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Daquelas lembranças
É estranho conhecer e ser desconhecido. Ter amigos* que jamais seriam amigos entre eles, saber que tens amigos - tão presentes em suas fotografias - e saber que és um amigo tão ausente nas minhas (e eu nas suas). Não temos imagens juntos, existimos? Não somos fora das nossas químicas lembranças e silenciosas relações. Parece segredo. E algumas coisas são melhores ficar como estão. Saber é bom que em nossas capacidade de olhar só nos vemos se olharmos para dentro, não como quem vê pura e mecanicamente, mas como quem busca o quê ver; e, nesse caso, não somente como quem busca uma imagem, mas uma lembrança que pode ser um cheiro, um som, uma palavra escrita ou uma sensação que já passou. Talvez seja mais forte o te sentir pois desprezávamos quaisquer forma mecânica de nos lembrar-mos um ao outro. Talvez seja mais fraco porque somos constantemente trapaceados por nossa química memorial - e mais e mais com o passar dos tempos. Mas eis que, de repente, algo me faz lembrar você e - talvez por parecer absurdo - sua presença vem à tona. Confesso que acabamos vivendo muito mais: sem saber se foi vivido ou inventado, você aparece de um jeito certo ou errado. Seja como for.
*Dedico aos amigos que tiveram uma infância e adolescência felizes sem máquinas fotográficas, filmadoras e celulares por todos os lados...
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