sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O sonho




"Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas".

Clarice Linspector

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Pode não ser só comigo



Ao abrir os olhos notou a respiração ofegante, e o ambiente, que era escuro, aos poucos ia se revelando em contornos e traços envultecidos. Pouco a pouco foi se situando, percebendo o local que estava, a hora quase certa e a temperatura que fazia. Um pouco mais de pensamento foi preciso pra perceber que despertara. Mas havia mais. Ironicamente o sonho se tornou realidade. Nêle, estava trabalhando quando colegas notaram que sua pele brilhava. Sentiu o suor começar a escorrer, como quem nota o sangue antes da dor do corte, e então lhe perguntam: "Você está bem? Parece que está suando muito anormal". Ele, pressentindo o porvir, adiantou sua psicologia e se preparou, advertindo aos demais presentes: "Estou mesmo, é verdade.. não consigo mais o controle de tudo, vou desmaiar". E ao desmaiar em sonho este acaba acordando do sono, interrompendo abruptamente o sonho e seu contexto freudiano. Acontece que sim, o sonho interioriza situações de estresse que assustam no sentido de algum dia não conseguir mais se centrar e ponderar. Mas dai para acordar ao desmaiar é demasiadamente curioso. Fica a dúvida, como que roteirizada hollywoodianamente, se o desmaio levou do sonho à realidade ou se a realidade já se transformou em sonho. E pode não ser só comigo.

A pintura é de Füssli, 1781.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Pra minha Dulcinéia del Toboso



 
Sei que vê esse meu jeito de pessoa liberada, mas não sabe que por dentro não é isso, eu não sou nada. Se tenho ares de serpente, em casos de amor sou pequeno, sou carente, sou tão frágil, sonhador. Sei que me pinto e me disfarço, sou companheiro do perigo; até me solto em sua festa, mas sozinho eu não consigo. Digo coisas que não faço e faço coisas que eu não digo. Quero ser o seu amado, não somente seu amigo. E toda vez que eu sinto um beijo seu na minha face, eu luto pra manter o meu disfarce e não deixar tão claro que te quero. Cada vez se torna mais difícil meu teatro. Não da mais pra fugir do seu contato. Estou apaixonado por você. 

Obs: Escrito assim, a música popular também toma uma sensação boa. A música "Meu disface" é de autoria de Carlos Colla e Chico Roque

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Há um segundo tudo estava em paz



Quem conhece as lendas do bom blues sabe que é na encruzilhada que se faz o pacto com o diabo. Ali, cava-se um buraco e deposita-se alguns pertences: são as batidas na porta do inferno. Vertida a alma ao diabo, o blues então corre solto pelas veias do vendido. Metáfora perfeita para nossas decisões: as mais dificeis - nos ensinam - custam coisas que amamos e não são desfeitas. A vantagem é que dali pra frente o sucesso é absoluto, até que o diabo reclame sua alma, vendido no momento do pacto. Verdades: a encruzilhada guarda segredos pois o homem não quer um caminho, quer vários. Nela enterramos pedaços de nós porque queremos partes inteiras que não podemos ter. Nela fica o que mais amamos. Nela voltamos sempre. Pena haver apenas uma alma para se vender.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Auto retrato




Se auto retrato, não saberia definir o velho, nem o menino, nem o moço. Não saberia como falar sobre eles. E se o faço, é com bastante timidez. Fato é que este post é para me conhecerem um pouco. O Velhosantiago é este ai, do daguerreótipo acima. Sim, não é uma fotografia, é um daguerreótipo. Não é uma foto antiga, pelo contrário, é novíssima, feita em julho de 2011 por uma técnica de 1837. Raridade, não? Bem, desde pequeno durmo tarde. Mãe que tenho bem que tentou que tomasse jeito esse moleque - "fecha os olhos que o sono vem". Mas... fecho os olhos e pipocam sonhos realizados, vontades deixadas pra depois, realizações que me alegram, minha camiseta nova que quero usar amanhã. Sou do impossível ao absurdamente simples. Da leitura fácil à incompreensível (que abandono quase de imediato), dos filmes em fullhd ao nosso querido Corinthiano, o Mazzaropi. Sou da água ao vinho, seco, do café - este sempre quente, claro - ao pão com manteiga que gosto muito. Escrever não é um dom, nem exercício, como pensei que seria ao criar este blog. Tornou-se fuga (sim, Pipa, desta vez fuga). Do quê? Deixo assim, subentendido. Por isso deixo a porta sempre aberta. Por que não tem hora pra ser Velhosantiago.

Ps: notaram a chícara de café que seguro na imagem acima? Detalhes... e hábitos que vocês conhecem mais do que ninguém.

domingo, 21 de agosto de 2011

Planos pra quando o amanhã chegar



Fazia exatos 22 dias que ele havia comprado aquela garrafa de vinho que tanto gosta. Estava fechada há 18 quando entendeu que deveria abrir. Pizza de marguerita, um clássico no bluray e a noite foi feliz. Apesar do calor. Planejador, escolher a pizzaria a dedo, o filme após 1h olhando aquelas prateleiras deixadas de lado, como se não tivesse mais valor, foi como um exercício de sobrevivência. Como treinam os exércitos dias e noites na selva ou deserto frios, eu treino com esses prazeres que a modernidade, a pizzaria delivery e a locadora no quarteirão de casa me proporcionam. Dois dias depois veio o frio. A garrafa já estava vazia, ainda há dois pedaços de pizza na geladeira e o filme ainda na lembrança. Pra valer o frio que chegara, resolvi esquentar meu capuccinno. Precisei ponderar pra entender que por mais que a gente plenaje, se esforçe e tenha prazeres, sempre alguma coisa ainda fica pra depois. Neste caso foi o frio. Mas tenho medo que essas passagens como que bobas possam ser sentimentos ou desejos por vezes anulados inconscientemente. O frio demorou dois dias... Tenho medo que algumas coisas custem uma vida toda pra chegar.

domingo, 14 de agosto de 2011

O que você vê, saudade?



Na imagem acima, o que vê? Se bem atento, creio que a maioria pensará algo como um anjo ajoelhado e uma mulher santa, Maria provavelmente, ao fundo uma provável janela, com uma vista bonita. Se culto, logo dirá - "é um Botticelli, claro!". Em todo caso não credito que a resposta seja algo como - "vejo cores, vejo traços que formam figuras, vejo disposição das formas e das cores". E é, justamente, apenas isto que se vê. Não se vê o que se vê, tais figuras não estão ali. Mas as vemos por vemos coisas que nos fazem enxergá-las. Ver, neste caso, é olhar para o que não está lá. É perceber um mundo que não é o próprio mundo, mas uma maneira de mostrar aquilo que se faz ideia. É re-apresentar algo que de fato existe ou existiu, presumo. Quem nota uma ausência - pura sensibilidade - enxerga algo que não se vê. Vê que faltam tais formantes e, justamente por não ver, percebem aquilo que nasce da diferença: o sentido. Faz sentido não saber de uma pessoa e notar sua ausência justamente por não estar lá aquele traço, aquela cor, aqueles textos ou imagens que sentimos nascerem dela. Anunciamos, assim, nossa saudade. Para a semiótica, só temos o sentido de saudade porque temos sua diferença. E é ai que entendemos o que não se entende: se saudade é "Recordação nostálgica e suave de pessoas ou coisas distantes, ou de coisas passadas" como se convencionou (lembrado pelo Michaelis), como explicar a saudade que sentimos de quem está dentro da gente? Tão mais perto impossível.

Fulga

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Daquelas lembranças



É estranho conhecer e ser desconhecido. Ter amigos* que jamais seriam amigos entre eles, saber que tens amigos - tão presentes em suas fotografias - e saber que és um amigo tão ausente nas minhas (e eu nas suas). Não temos imagens juntos, existimos? Não somos fora das nossas químicas lembranças e silenciosas relações. Parece segredo. E algumas coisas são melhores ficar como estão. Saber é bom que em nossas capacidade de olhar só nos vemos se olharmos para dentro, não como quem vê pura e mecanicamente, mas como quem busca o quê ver; e, nesse caso, não somente como quem busca uma imagem, mas uma lembrança que pode ser um cheiro, um som, uma palavra escrita ou uma sensação que já passou. Talvez seja mais forte o te sentir pois desprezávamos quaisquer forma mecânica de nos lembrar-mos um ao outro. Talvez seja mais fraco porque somos constantemente trapaceados por nossa química memorial - e mais e mais com o passar dos tempos. Mas eis que, de repente, algo me faz lembrar você e - talvez por parecer absurdo - sua presença vem à tona. Confesso que acabamos vivendo muito mais: sem saber se foi vivido ou inventado, você aparece de um jeito certo ou errado. Seja como for.

*Dedico aos amigos que tiveram uma infância e adolescência felizes sem máquinas fotográficas, filmadoras e celulares por todos os lados...

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Cafés, cafés e cafés



Café é café e ponto. E isto está certo. Mas há cafés e cafés. É preciso um exercício para saber saboreá-los. Há Cafés que oferecem o prazer da degustação. Há cafés para esquentar, para matar a fome e há Cafes nos quais meninos não deveriam entrar, talvez pelo excesso de Cafe(t)ina. De qualquer modo, para um serzinho já crescido, os cafés variam em seu aroma, textura e persistência no paladar. Em minha última, pedi um Sul de Minas e um Bahia. Curtos. Vieram e, intercalando com breve gole de água com gás, meu sabor foi de alegria. O primeiro dos dois, encorpado: como uma jovem de pele firme e cabelos grossos, mas lisos, calças coladas ao corpo e um top branco por cima da pele escura, contrastando com sua beleza. O outro, suave, mas sedutor: como uma loira bronzeada de praia, com seus cabelos de luzes invertidas e de biquini de seda, bem leve e suavemente encaixado aos seus entornos. Conto isso degustando meu bom e velho capucino enlatado, tipo cinema americano dos anos 80 ou das novelas mexicanas. Mas ainda faço uma receita especialmente com você, Sul de Minas.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O menino, o moço e o velho

"Não sei como começou. Não sei se foi o capricho de um garoto escondido no corpo de um velho, ou o ideal de um jovem refletido no olhar de um adulto".



Assim começa a narrativa do filme O Estudante, um filme espanhol, de Roberto Girault. Primeira indicação que dou. Quem assistir entenderá o porquê. Bem... pelo começo da narrativa já dá pra se ter uma ideia... não? Ah.. há também o Santiago, um dos protagonistas do filme. Falar mais estraga.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Pra uma namorada



Eu penso em como superar a falta dela, mas oro para que seja ela a pensar sobre isso. Penso em como dimunuir a dor, minha ou dela, a que doer antes. Penso em como as coisas não estão mais como eram. Penso em como a gente viveu, como tudo passou, como sobrevivemos a tantas coisas. Penso, mas no limite daquilo que chamo de lembranças - fracas e cada vez mais duvidosas.

Penso em como o tempo foi bom, em como as coisas se ajeitaram. 

Penso nas besteiras que fizemos. E nas que superamos. Penso sobre como temos nossa beleza amadurecida, nossos corpos e rostos. Penso que beber água, bastante água, foi bom. Evitar comida ruim também. Penso nos filhos que tivemos. Próprios ou não. Penso no que construímos, no que pudemos comprar. Casa, carros, máquinas fotográfica e bolsas. Penso como foi dificil o começo: emprestar, parcelar, herdar, dividir para somar. Penso na ajuda que nossos pais deram. Penso no nosso amadurecimento profissional. Em nossas escolhas e aptidões. Nos valores que nos demos. E nos respeitamos. Penso como foi o começo, primeiros empregos, segundos, concursos. Passeios! Penso na primeira noite em nosso apartamento.

Nas passagens pela frente acompanhando, tijolo a tijolo (pré-fabricado) aquele cantinho - "simples, mas é nosso", como ela me disse certa vez - se erguendo. 

No que passamos para tentar - e viver - esse sonho. Penso em quando ainda jogávamos horas fora com filmes chatos ou de medo. Capucinos inventados, vinhos que só eu tomei. Penso em quando andávamos de mãos dadas e era estranho. Quando numa rua, que era minha, a vi pela primeira vez. Penso quando sonhava com alguém entrando em minha vida, por passagem em minha cidade. E me levando. E assim foi. Penso quando procurava você e não entendia que o tempo não era aquele. Penso como sofria. Queria, sabe. Já estava me preparando. Penso quando beijei outras bocas e todas me foram estranhas. Só a sua me acolheu. Penso quando não pensava no meu primeiro amor. Vergonha.

Penso quando salvava planetas, cidades, era super-herói - ao lado do meu pai - sem conhecer as super-heroinas que são as mães. 

Penso quando praticamente não pensava: eu sentia texturas, temperaturas, geometrias. E olhava como quem olhava pela primeira vez. E era, então, novamente bebê-criança. O bebê Santiago. E, então, eu era apenas uma barriga grande e quente. E já tinha o mundo em meu coração: esperava por você. Pra você quardei o amor que pude dar. 

(Versão com meu amigo Marcelo Araújo e Haline)