quinta-feira, 18 de março de 2010

Por onde andei enquanto você me procurava

Daquela estrada toda tortinha não se via a ponta do fim, e caminhava, assim, sem mesmo saber o que tinha do lado de lá. Caminhava porque a gente é caminheiro, e todos, mais ou outros menos, andam assim por estradas tão, mais ou nem tanto, tortinhas como a minha. Mas a minha tem severas curvas que não são fatais. Conto que, certa vez, peguei carona noutra que era quase reta como pau de pipa, mas fatal. E fatalizou-se ali um coração que era lindo e que eu amava tanto. Desde então ando feito folha que cai da árvore. Dou curvas, giro sobre mim mesmo e não me importo nada se precisar voltar. É que não se volta nunca, a gente sempre se vai, percebe? Igual as estradinhas, conheço várias, mas cada uma delas fica tão diferente quando eu passo pra ir ou pra voltar que nem te conto, precisava monstrar. Eu te levo para onde for, mas não vamos veloz. E tem sacolejos, mas tudo dá certo porque eu sei onde vou sacolejar. E até gosto depois que passa o balanço, imagina! Ele é um índice de que estaremos em movimento. Não se se move se não se balançar.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Entrave


Certa vez entravei: a maçã boa ou a não boa e fiquei pensando se seria caso para a ética, a moral ou para a polícia. Decidi que tinha saudade, e isso bastou para escolher outra maçã. Mas ela poderia não ser doce como a de antes, não ter a textura podre a que estava eu acostumado. Mas era mesmo podre? Não, nem eu mesmo, que a segurei por tanto tempo em mãos, saibo responder. Talvez fosse, porque não a seria? Fato é que me agradou a mais colorida, a que menos se era diferente, a que não fazia das outras iguais a ela. Peguei, então, a que era ela mesma, e eis que tudo foi mais natural, até mesmo eu me acostumar à ela. Numa segunda, foi isso que pude fazer, pois a porta/janela estava aberta e só. Nem vento entrava, nem nada. Nem sombra. Mas eu estava lá, do lado aqui, de dentro, esperando ela entrar. Mas ela preferiu falar ao telefone que não estava lá se preocupando muito, que frescura não era a dela. E quando, então, a maçã em minhas mãos me falou ao coração, faltou dúvida, caiu, então, a certeza de não se saber o que passa. E nossa história não estaria pelo avesso assim, sem final feliz, sem coisas bonitas para se contar. E, até lá, vamos viver, temos muito ainda o que fazer.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Ligamentos durante a meia idade e a vida inteira

Para alguns já falei sobre um desacordo: estar "conectado" não significa estar "em conexão". Questionaram isso, dizem ser a mesma coisa, mas talvez porque alguns olhos vejam uma coisa só. Já vivi as duas, sei se tratar mais além. Estar conectado à uma bolsa de soro não significa que eu queira assim estar, mesmo que mantenhamos uma certa conexão, ela, com certeza, não é mútua. Conectado é questão física, mesmo que elétrica, mas conexão é estar espiritual, mesmo que também se repita fisicamente. Entendi também, e não com vivências poucas, que fazer um caminho sozinho não significa fazer uma caminhada só-litária. Mesmo quando tudo que eu tinha dependia apenas de mim, foi qualquer palavra de próximo que me iluminou. Enquanto nossos caminhos são trilhados por nossos passos apenas, nosso bússula aponta pra onde a alma se divide. E aqui pode morar o não compartilhamento. Deixe que se caminhe sozinho, mas nunca só. E, para isso, amigos e colegas que surgem como núvens e se vão como chuvas são importantes. Não porque, no final, você terá vencido um caminho sozinho, mas sim porque, durante todo o percurso, você nunca esteve só. 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Te vi passar, estrelinha

É uma estrelinha menor que um vagalume, mas isso porque eu é que vejo de longe. Mas lá, onde ela vive, ela brilha feito mais do que purpurina. Sei que é uma estrela grande, que brilha muito, sei porque toda vez que olho para cima ela esta lá, brilhando reluzida. E para ser assim não pode ter tamanho menor que um tanto assim, ó, do meu universo. Acontece que nem toda estrela fica para sempre, essa pelo menos é cadente, mas se não fosse por isso não teria passado perto de mim. Já aprendi que algumas são assim mesmo, passam rápido, já vi várias. Muito rápidas por sinal. Mas acho que por isso o rastro que deixa é grande, porque passa depressa e com pressa. Ela quer brilhar por onde puder, no tempo que tiver, e deixa o rastro por ai, para a gente olhar daqui. Fica pouco tempo, mas sobra por muito. Tem outras que é ao contrário, mas essas se apagam da cabeça da gente, mesmo ficando mais tempo. A minha, essa ai, menor que um vagalume, passa bem depressa mas fica que nem chiclete no cabelo. E tenho certeza que esse brilho ainda aumenta, mesmo se apagando para mim, mas já disse: isso é porque eu é que continuarei vendo de longe.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A astúcia nossa (por fases da vida)

Criança, ter mais brinquedos em quantidade chamava atenção das outras crianças. Coisas novas também. Astutos, trazíamos eles embaixo do braço, mas bemmm às vistas dos outros. As meninas, à época, torciam o nariz para isso... nunca entendi. Menino, foi a vez da bicicleta ser o centro da atenção, era astuto pedalar e passar bem rápido perto dos outros. Ninguem notava; as meninas, à época, andavam bem devagar... nunca entendi. Adolescente, lembro que perfume, roupa nova (preferencialmente cara) era como que nem meus antigos brinquedos: dava inveja. À época, as meninas sequer notavam... nunca entendi. No colégio, atrativo era zuar colegas, desrespeitar qualquer coisa que exigisse respeito. As meninas adoravam isso, mas repudiavam... nunca entendi. E a faculdade? Chegar atrasado é bom, todos te notam; sair mais cedo também: coragem. As meninas faziam o mesmo, só que com mais coisas embaixo do braço balançando do que os homens, bemmm às vistas dos outros... nunca entendi. Nas festas, a gente se reunia e olhava bem devagar para todas, praticamente, e tentava passar segurança (que n tinha); as meninas, bem rápido e olhando à frente, fixamente, passavam por nós... nunca entendi. Já adulto, casado, nossos olhos se voltavam para algumas questões que bem nos lembravam o passado; agora essas questões (àquelas que acompanharam nosso crescimento) passavam bem devagar, em carros bonitos, e nós torcíamos o nariz para isso... passei a entender. Já velho, chego atrasado nos lugares, é ruim, todos notam; e saimos diversas vezes mais cedo, e todos sabem porque. Já elas, são levadas embaixo de vários braços mais novos, bemmm à vista dos outros... eu entendo. Mas agora não dá mais para se reunir com os outros para olhar para tudo isso, pois muitos já são outros em lugares que alguns ainda não chegaram. Mas estamos a caminho... 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Quando quis mais você do que a mim


Essa é uma daquelas vezes que procuramos um poço para olhar dentro, uma metáfora reflexiva sobre olhar para dentro de nós mesmos. É isso que faço agora. Olho para dentro. E percebo que procurei você todas as vezes que eu a mim mesmo não me era suficiente. E percebo (pq você me disse) que isso foi ruim. É que quando me dei falta de algumas razões, sem outros tantos motivos de alegria, foi em um certo amor que eu me apoiei. Mas parece que tropecei grande, pq grande era o amor também. E isso sufocou primeiro a você e depois a mim mesmo; e nos fechou, um ao outro, primeiro dentro de nós mesmos. Amar sem medida não é a medida de um grande amor. Percebo tarde. Isso que dá, nunca se sabe quando se põe água (amor, fique claro!) de mais ou de menos num copo. E acho que foi que transbordou, foi isso  (você deu outro nome). Fico triste porque eu mesmo não percebi, mas não foi egoísmo. Foi acho que um pouco de azar mesmo: naquele dia já tinha acordado com o pé esquerdo.    

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Passarim feito pra voar

 

Passarim feito pra voar, avoe, não fique ali parado como quem diz sentado pq as asas não bate. Se quer falar sobre isso, de nada adianta, você é passarim e pronto. Ícaro não era e virou mito, mas você, que é, fica é muito esquisito posando pra foto. De criança eu pegava os pequenos e cuidava, eles logo se iam e eu não entendida... tinha tudo aqui, até casa de caixa de sapato, do último sapato comprado, casa nova. Ainda não sei se iam ou se iam é com ele, minha mãe não detalha. Se voam é pq são assim; eu, sem asas, sou só suspiro. Queria numa queda livre só fugir do gavião, e lá, depois do mergulho emocionante, subir novamente e procurar um riachinho pra tomar um gole. Refrescar e depois procurar outro gavião pra mais uma disputa. Ou quem sabe ia pro sol, ter um papo com o Ícaro que, sim, vive por lá. É dele que se caem as penas que vemos no chão. 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Primeiro segundo, terceiro, quarto, quinto...

Tinha ele um peso alegre nos ombros: era a saudade dos amigos que batia, todos longe já, crescidos, casando-se e tendo filhos e outros cumprindo esses dois ao contrário. Sabia ele que saudade é comida farta e boa, que diz a refeição ter valido a pena. E sentia muita. Alí, no sofá, ocorreu de ter tido com as ideias o seguinte: se hoje tem seus amigos que se foram morar longe, um a um, um dia o primeiro deles terá que ir mais antes do que os outros, e esse chegará sozinho na frente. E assim, ao invéz de ver os amigos indo um a um para os mais variados cantos, verá-los é voltanto - tomara um a um - para perto novamente. E será feliz a cada volta, o oposto do que senti ontem, lembrando deles indo e indo-me também da mesma forma. Mas não sei... não queria ser o primeiro a chegar lá para receber a todos. Enquanto a isso tudo bem, o primeiro já está lá, a espera do segundo, terceiro, quarto, quinto... de mim?

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Procurando em todas as direções

Sai, então a caminhar. À tira colo, minha máquina de bolso: queria aquelas pegadas de praia. E por onde eu ia não as via. Muito cedo, verdade, para se laçar coisas dessas, talvez quando praia cheia, quando pessoas acordadas e crianças por ali, correndo para um tempo que elas ainda não aprenderam a entender. Mais de 20 minutos contra o sol, a melhor luz, branca como algodão no céu, daquele que dá vontade de pular mais alto e numa bocada adocicar o resto do dia. Nada. Cheguei a pensar que naquele dia houvesse uma espécie de greve para Iemanjá, algum descontentamento não resolvido, quem sabe. Mais 20 minutos. Outros 20. Mais 10 só, se nada, eu volto. Nada. Fiz-me voltar, lancei uma perna como que cruzasse a outra. Foi então que entendi, mesmo na velhice, que muitas vezes em que tracei um foco, em que objetivei o importante, eu procurava em uma única direção. Me voltei e vi minhas pegadas. Estavam desde sempre ali, esperando...

*Créditos da imagem para verarenm´s.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

EU DECIDI PARADO NÃO VOU FICAR

Aquele lençol, exatamente como se deixa, assim que se acorda ele fica. É o meu, o reconheço, ele não se mexe. E, tal assim como fica, entristece assim que se volta. Ele ali me bate no rosto que companhia eu não tenho. Mas estamos tão acostumados... tanto ele quanto a mim, voltamos como saimos, a diferença é um banho, talvez. Pensamentos aprenderam, de mansinho, a contruir espaço, como pontes entre futuro e minha realidade. Como será quando tudo mudar?

Diz, por essa ponte, que Física preencherá espaços: ondas sonoras, luzes que formam em meus olhos turvos figuras reflexivas de carinho também, talvez. Por quanto tempo se mantém carinho como o meu pelo lençol ali, que deixo assim que se acorda ele fica? Haverá companhia, mas, meu deus, que exista companheirismo! E se uma das partes acordar antes e não houver sono da segunda, qual deve preparar o café? Não o preto, não tomo. Haverá capuccinno para sempre?

E ele, não sendo mais meu, volto arrumado. Que triste para ele, amaciado por quem o não concebeu. Que triste para mim, amaciado por quem não foi concebido. Que triste para a outra parte, até então uma hipótese, uma epífase, uma qualquer. Mas uma que começa a modificar meu sentimento, antes mesmo de amassar primeiro o lençol ou de arrumá-lo para hora mais avançada.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

COM OS PÉS NO CHÃO E A CABEÇA NAS NÚVENS

Com sua coleirinha preferida de onçinha, nuvenzinha minha mais eu fomos caminhar. Travessamos pontes, tiramos os sapatos e pusemos nossos pés nágua dum riacho, enchido por ela mesma. Sempre caminhamos por ai, especialmente em dias turbulentos e em horas que demoram para passar. Faz, quem sabe, a vida um pouco mais ser aceita, diminui desprazeres e aumenta muito nossas coxas, que ficam gostosinhas para serem apertadas de noite, na cama.

E precisa ver como nossas cabeças ficam leves! Nuvenzinha até avoa, às vezes para longe, porque leve se sente poder ir mais pra lá ainda. Eu solto corda, porque eu sei que ela volta. Mas um dia deu que não voltou. Pus tênis macio e fui buscar. Não achei. Emprestei um carro e sai a noite, que é quando nuvenzinha branca se destaca no céu e brilha formosa feito televisão LCD. Estava ela lá, deitada numa lombada com sua amiga, conversando.

Depois desse dia comprei a colera de onçinha, que ela usa porque adorou a cor. Nunca tentei segurá-la perto, mas sei que soa contraditório. Na verdade nossa cordinha é de fio de amor, finíssimo, porque o amor é raro. E delicado como só vendo: se puxar, até de leve, quebra e podemos ir cada qual para seu lado preferido. Eu, talvez, visitaria lugares que me lembram nuvenzinha; ela, quem sabe, deitaria com seus amigos em lombadas por ai...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

OS PÉS QUE NÃO SABEM ANDAR

Por hora está ainda lá. É quase único: divide o quintal com um coqueiro. Mas o fato de menor importância é que ambos não andam. E isso de certa forma me entristece.

Queria dar pés aos pés de coisas, mesmo os pés de árvores mais simples.

E fico cá eu, pensando em como se ensina pés de coisas a andarem. E quando andarem, que triste fico eu cá, já que vejo em suas folhas o mesmo tempo que meu rosto também já carrega.