quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

PISANDO ONDE TOCA O ARCOÍRIS

Ouro de tolo é o que não tenho. Muito menos pote cheio deles. Ouro meu é de verdade, e ouro meu não brilha brilhoso, ou é suntuoso, ou pindurricalha por pulsos alheios e pescoços floreados. Ouro meu é servido num pote que busco na saudade, e me enriquece o coração sempre que fico assim, sem tempo ou sem espaço. Ouro meu é pisar onde toca o arcoíris. E é dado sempre que tenho saudade.

Jogue fora este ouro teu, caro amigo. Talvez este não te enriquece tanto como este meu, que lhe é oferecido aos montes. Deves procurá-lo onde ele existe em abundância e é fácil o garimpo, basta um exercício. Mesmo que rocha sólida encontre, garanto que o ouro fica a poucos minutos de uma idéia. E a rocha sempre quebra com o tempo, não com mais nada não.

Tem outro jeito pro garimpo: pega na mão a luz do tempo que já se foi, aproxime e cheira suas vontades: basta compreendê-las. Ponha-as em luz de vela e sopre nela a ausência que te dá. E olhe que dá, bem eu o sei, que tanto as cheiro. Se luz que foi ficou no papel, fica muito mais em carne. Não se sabe porque, mas é na memória que mais forte ficam as fotografias gravadas. Parece que se tornam ouro.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

CHUVA NA PORTA DE CASA

Quando se chega assim em pé de chuva a natureza avisa que pode mais. Mesmo sabendo que sou menos, não dá vontade de tremer as pernas. Eu apenas observo. Por sorte, posso guardar esse momento. Queria que passasse em cima de mim, para eu olhar para cima. Mas passou longe. O suficiente para eu me sentir menor novamente.

Nessa época é comum grandes massas e muita água. Agora um pouco mais, dizem: agravantes que pagamos por não respeitar a natureza. Lembro que quando menino Santiago, de bicicleta, corríamos para entrar embaixo dessas águas doces e geladas. E quando barulho fazia, fazíamos o caminho inverso, e muito mais rápido.

Hoje, passo próximo blindado, com teto e tudo. Sem chance de molhar e sem vontade de ir atrás. Hoje passo sozinho, procurando gotas dessa saudade. O tempo passa marcado pela chuva que se vai e pela luz do dia que se apaga. Mas que fica gravado em pixels e em pequenas coisas dentro do coração que não souberam dar nome ainda.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A VERDADEIRA ESTRELA DO NATAL

Dizem que uma estrela guiou Baltasar, Melchior e Gaspar até o local que Maria teve Jesus. Graças a ela, ele recebeu ouro, incenso e mirra, que representavam a nobreza, fé e o sacrifício. A estrela deixou Jesus homem antes que pudesse ser criança. Por isso o natal é para todos: porque, homem, ele é todas as idades e sexos. Mas acho que a verdadeira estrela é outra, é a minha. É porque acho que Natal não é para todos: é para a criança.

Natal feliz tem presente, tem brinquedo, mesmo que o brinquedo que se queira não tenha rodinhas. O brinquedo é assim porque se brinca; brinco (brinco -edo). Embora sufixado por -edo, provavelmente relacionado com a madeira, era disso fabricado aquilo com o que se brincava. A palavra brinquedo derivado de brinco, substantivo de vinculum, que significa também pingente, enfeite. Só é brinquedo se se puder levar e ser feito por alguma mão.

Meus pais não marcenaram nenhum brinquedo para mim. Mas fizeram relativo: em nosso tempo, troca-se papel por tudo, até plástico, que fazem brinquedos e que transformei em alegria e recordação. Em lixo também, quando os quebrava, mas era só uma subproduto da minha felicidade. Estrela de verdade para mim é outra. E ser menino não tem idade, assim como brinquedo não tem que ser de loja para criança.

sábado, 19 de dezembro de 2009

contraponto

É que nessa viela de São Paulo, em meio às lojas, uma outra loja me chama atenção. Fica ao fundo, de frente para todos, tal qual pagante de restaurante ou chefe de família. E ela vê o que mostro acima, um caminho longo, entrecortado por coqueiros e pessoas que se aventuram adentrar esses poucos metros. No meio, bancos, às 16h, sol na metade e metade sem o sol. Sento para ganhar ar.

Em tal loja, de pé, atrás da porta de vidro, outro senhor me olha. Loja de troca, compra e venda; uma loja mágica, que guarda tantos outros objetos de carinhos herdados dos pais, avós e se sabe lá quantas gerações podem repassar um mero relógio de bolso. O senhor, japonês, estou certo, parecia saber de todas as histórias dali, em promoção. Parecia saber da minha, que escondo virando-lhe as costas. Por hora, ainda a mantive minha.

Voltando-me para a entrada, noto que SP é mais do que avenidas cheias, é também corredores vazios. Percebi dois casal na 1ª loja, um bebê ainda na barriga, um cigarro, um café, e me deu vontade dele, que não tomei por estar sozinho. Para mim, café é bebida coletiva, ou um cigarrinho para não fumante. Acalma, mas me acelera, fico ligado. Quanta sensibilidade com o florescer da idade. Cafeínas!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

UMA VELA PARA CLAREAR A IDEIA

Uma vela para clarear a ideia e uma pessoa para clareado pela vela faz falta em noites assim, dessas que quase não tem fim. Quase ao nosso lado refresca uma garrafa de vinho, aberta e já pela metade. As taças suadas. Mais um gole. Outro sorriso, um comentário baixinho, a voz sussura. Um toque. Suave. Os olhares brilham mais com a fraca chama; a vela faz sombras, sequer parece nossa, e percebemos face dissimulada nelas.

Lembranças. Elas aparecem. Situações dessas trazem lembranças. Todas. O silêncio lá fora também lembra. Hora esta de rever amigos distantes, saudades guardadas, mágoas escondidas embaixo do coração. E o canto em que me encosto encosta outro ombro tanto igual ao meu, que também lembra. Estes cantos guardam lembranças que o vinho molha.

Esvazio a taça, ainda suada. Olho a vela sem prestar atenção no que o outro me fala. Penso se a vela ilumina um pedaço da minha vida ou se minha vida espera que ela se apague o mais breve possível. Tem o que ser escondido, mas não são segredos não. Essa luz mostra o que todas as outras escondem. Mostra nosso cara mais limpa. Mostra uma alma tão suada quanto essas taças.

domingo, 6 de dezembro de 2009

O HINO QUE NÃO TINHA BANDEIRA

Eu mais Hino nos tivemos ontem. Já nos tivemos várias vezes, mas não como ontem. Ontem, tanto ele quanto eu estávamos sós. Ou não, uma vez que eu a ele e ele a mim éramos presentes. Notei, então, algumas sábias palavras suas. E notei, ainda, que seu discurso falava sobre as pessoas. Faltou-lhe, porém, a bandeira. Não havia para quem as pessoas e para o próprio se dirigirem, como manda o tal figurino.

E, mesmo assim, foi talvez o que mais a mim acertou. Na falta da representação verde amarela (acima), os presentes tiveram, talvez pela primeira vez para tantos como o foi a mim, apenas ao outro ali, do lado, à frente ou atrás. E tiveram, enquanto pessoas, o sentimento unido não pelo símbolo de cor, mas pela comunhão em si, que ai sim, o símbolo representa. Todos cantaram à comunhão e não à representação da comunhão oferecida pela bandeira e melodia.

Me encantei. O Hino cantado ao povo e pelo povo, e sem patriotismo servil. "Agora, dirijam-se ao seu outro para o (en)cantamento do Hino". Seria lindo, como foi ontem. E aplausos, muitos aplausos, porque se aplaude o que de belo existe e não se fica indiferente. Assim, mesmo sem gostar nada nada de solidão, creio aquele Hino de ontem ter sido o mais feliz já existido. Talvez, justamente, porque sozinho pôde se partilhar.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

DESCANSO EM DEZEMBRO

Se nem tão cheia carrego minha sacola de mão, saiba o quanto ela me pesa mesmo assim. Já nesse tempo, a espera do último inverno, os sonhos dentro são quase como uma pétala no espaço. E necessito sentar para recuperar o fôlego, o mesmo fôlego que tanto deixei de aproveitar sem me dar conta da pressa do tempo. E ponho, talvez pela última vez, uns poucos sonhos - e nem tão essenciais assim - no chão.

Quem poderia querer me levar esses sonhos tão leves em peso? É seguro que eles ninguém me quer tirar. E os sinto um pouco com menos valor dito isso. Em minha frente, olho outras tantas sacolas. Quanto será que elas pesam nas mãos que as carregam? Será que tem o peso que a minha outrora tivera? Será que tem o peso que descarreguei para me aliviar? Será que, mesmo mais cheias, estão mais leves do que esta que me quase caleja?

Ninguém pára para falar do peso de sua sacola comigo. Ninguém quer contabilizar seus ítens de sonhos, e aposto que escondem aqueles que já arremessaram fora para se aliviar e andar menos encurvados. Sempre calejei a mão de sonhos, sempre os levei comigo. Sempre os quis. E me pesaram muito, me fadigaram, e hoje me fazem sentar nesse banco. Talvez seja por isso que não me importo de tirá-los do coração e pô-los no chão por um pouquinho de tempo.

PS: Imagem retirada na Internet. Não havia créditos.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O PRESENTE É TÃO GRANDE

Tens ouvido as poesias caducas deste mundo? Elas cantam um futuro que já é, e tem se apresentado belo, veja só. Também tem escuras as partes ora distantes ora próximas e, em ambas, há amigos que juntos caem na mesma dança. Mesmos cansados, mantêm a esperança, dão as mãos, mesmo se mãos tão diferentes, mesmo se tão caducas, mesmo se em realidades tão opostas, como a do menino moço e do menino velho.

De mãos dadas, caminham para o futuro que não existe. Afinal, sobre o tempo, só mesmo o passado existe, todo o resto tão igual taciturno se desfaz. O presente é mais rápido que a consciência e o futuro se esvai por entre nossos dedos... como ele chega depressa demais!E, então, se transforma em lembranças próximas, sem se afastar muito. Uma criança - a mulher acriançou novamente -, uma história, suspiros e paisagens tortas.

Ainda muito jovem, desconhece os finais do poema, não escreve cartas, desconhece palavras e essência de morte. Não sei se conhece, já, uma ilha. Talvez um rio, um lago e o mar. Serafins, estou certo, o guardam. Se o guardam. E me dão provas disso. E acredito mais neles e noutras coisas pelo presente ainda humaninho. O que vejo se faz matéria, o tempo passado, os homens presentes meninos passados; velhos, como este, futuro. A vida se refaz a cada dia.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

FEITO BOLA DE SABÃO

Sabe quando você pega algo que já foi de você, daquele pequeno, do de antes, e que você já não mais o percebe? Quando sua mão passeia por coisas que já percorreram e que tu lembras o quanto desbravou com elas? Lembra da primeira sensação do barro, da lama, do sabão? Eu não. Lembro deles, sempre, mas não sinto mais a primeira vez. Porque ela se apaga?

A primeira bola de sabão, onde ela foi? Para aonde ela correu? Quanto tempo antes de... Plaft!, se desintegrar naquele dia. E que dia? Chuvoso, quente, vento forte. Queria quardar mais do tempo aqui dentro. Mas me sou seletivo sem eu querer e só o saibo depois de não poder mais me lembrar. Que coisa. Queria quardar tanta coisa que já me fez bem e o resto não.

Feito bola de sabão os pensamentos saem, percebeu já isso? Por um instante, sempre muito breve, são lindos, brilhantes, coloridos, voam para longe e vão se distorcendo, se alterando, vão afinando, são levados e, quando não se espera, Plaft! de novo. E então chega num limite que não compreendemos. Eles vão para onde não sabemos, e falam, enfim, apenas para uns tantos que aprender a ler nosso sopro.

PS: Crédito da imagem para "Ariadna´s". Mais do trabalho dela em: www.fotothing.com/Ariadna. Confiram!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

EU DO LADO TEU

Hoje me ocorreu. Da última vez nem me lembro quando eu do lado teu perguntei qualquer coisa descompromissadamente. Eu, que aprendi a não falar com estranhos, levei isso muito a sério. Aprendi ainda muitas coisas que também levei a sério e hoje elas me faltam. Aprendi que o céu não é azul porque reflete o mar, e isso me afastou dos oceanos. As núvens não são de algodão e eu nem tive tempo de bem quere-las doce. Imagine se bato no teu ombro e lhe conto isso.

Ali, do lado, um grupo conversa. Se conhecem. Eu, só no instante, não conheco ninguém, apesar de tê-los conhecido por aquela história do Estreito de Bering, tal; ou das imigrações. Atrás tem outro grupo que ri. Conversam, trocam impressão. Não me perguntam da minha. Não me olham nos olhos. Tem medo de mim. E eu, tão acarentado daquilo que nos falta, da humanidade que ainda não temos, faço o mesmo, porque também me falta. Mas me proponho a quebrar isso.

Quando encontrar um tempo/espaço adequado, acreditando poder haver um, olharei para o lado e tocarei um ombro qualquer, e direi algo como: - está calor hoje, hun? Não... melhor não, melhor dizer a verdade, sem frases comuns, sem tipos batidos já. Conto se recuperar o que me desfaz de humano, aquilo que me transforma em social individual ao invés de um indivíduo ao pé da palavra social. Não se assuste se, após o toque, lhe contar que comprei um perfume em 4x sem juros com entrada para 60 dias. Carnaval já tem conta para pagar.

*PS: merecidos créditos para a imagem de uma amiga, a "São Paulo" (preservarei o pseudônimo utilizado em sua página). Mais do trabalho desse ótimo olhar que nos empresta, aqui.

sábado, 14 de novembro de 2009

AMORAL

E assim ele se reclusou, primeiro, para organizar as ideias e refletir sobre elas. Organizou primeiro os sentimentos, sem palavras, para não perder a essência de cada uma daquelas interações químicas. Depois, tentou esquecer a química, ideia dos homens, construida e fundamentada por eles. Depois, tentou esquecer que pensava segundo aquele sistema que havia aprendida na escola. Apagou todas as aulas da memória e realmente reprogramou seu cérebro, fugindo daquilo que outro homem chamou de consciente e inconsciente, passando pelo subconsciente até entrar no quesito puramente incestuoso.

Por consequência, tornou se amoral. Sem sentimentos, sem ideias, sem ética, sem moral alguma. E isso lhe fez nem bem nem mal. Fez se a ele mesmo apenas. As palavras perderam sentido, não mais significavam. O pensamento, agora, funcionava de outra forma. As sensações eram puras, os sentimentos haviam mudados, já que agora, amoral, muita coisa perdera sentido sem a imposição de uma sociedade. O simples bocejar fora de hora, ofensa para alguns, agora era não mais do que ele mesmo e só. Depois da reclusão, tentou voltar, descer o morro e gritar aos seus iguais. Mas lhe ocorreu que outro poderia tê-lo feito. E se calou. E calando-se, voltou a sua anormalidade. Zaratustra ficou no chinelo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

AUTO RETRATO

Não é o saber que a ele incomoda, as histórias já vividas, o tempo já passado. É saber que ele tem pouco tempo para viver as histórias que gostaria, de sofrer muito e se modificar, de gozar das rosas, margaridas e orquídias que por ai se dá. Ele criou a consciêcia sobre o tempo. Sabe que prefere o azul, mas se tiver verde é uma cor para antes da preferida. Bebe água mas, se não tiver, prova do que estiver ao alcanse.

Escolheu uma profissão, mas percebe que adoraria outras. Não há tempo. Não porque não se pode recomeçar, mas porque nunca se recomeça. O começo é uma vez só, se dá na barrida da outra. Por isso ele olha a si e pensa que, talvez, sejas apenas mera representação dele mesmo. Procura um lugar que já tenha andado. Gosta de nele pensar sobre os outros. Se sente inseguro. Tem medo. Muito medo. Mas disfarça bem. Muito bem. Não transparece.

Tem segredos. Poucos. Tão banais, formaram apenas alguém que hoje é ele. Procura por si nessas histórias, olha para trás, vê bem. Então se olha no espelho, se olha para fora procurando o que está dentro. É mais facil achar no outro, no do espelho, que o fita nos olhos, ameaçadoramente, como se o de cá, o que provê o contato, fosse responsável. Não sabem o que procurar. Não encontraram sequer a direção, ou o rumo do vento que sopra.

Ele quer sair, está triste. É tarde, mas não importa. Porém, sabe que de nada adiantará e liga a TV. Senta. Passa todos os canais. Todos eles não tapam o barulho que agora escuta, nessa silenciosa madrugada. Vem de dentro. Alto, muito alto, e falam de coisas sem sentido. Nem ele entende. Então volta ao espelho. Fita o outro nos olhos, que volta a ameaçar-lhe. O recado é claro e silencioso. Ameaçam-se ao mesmo tempo. E cumprem o não dito.