segunda-feira, 19 de outubro de 2009

COMO PIEDADE

Nós, o homem inferior, aquele que sente, que vê, que fala sem saber direito sequer como o fazer; nós, que tantas vezes podemos dar de nossa mão, mas que a escondemos no bolso da frente da calça diante da dignidade humana e ameaçadoramente impune; nós, que tanto construímos mas sequer nos preocupamos em fazer com que isso seja do outro - e queremos sempre nosso papel de dinheiro; nós que andamos, rimos e choramos, que pedimos muito mais do que oferecemos - e mesmo assim - não entendemos nem a nós mesmos, meu deus.

Como se pode desejar compreender o outro? Mesmo assim, ela, com sua mão sobre o peito, representa como quem ora e pede e crê. Seus olhos ausentes nos amplifica nossa reconstrução: estará encharcado de lágrimas enquanto o pede.

Sim, também imagino que respira ofegantemente, como quem por ver, a si mesma se sente agredida. Que voz vigilante intercede por nós, o homem inferior! Gesticula em estática uma breve oração, um pedido, uma intervenção que nos rende graças. Mas, vendo o homem sentado diante da cena em purificação, me penso que talvez, e ai sim eu compreenda melhor a humanidade, penso que talvez o homem sequer esteja pensando em graça: busca apenas uma coisa bem gostosa para por na boca e saborear pelo tempo que lhe for permitido.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

COMO APRENDI A CONTAR O TEMPO

Quando perdia meus balões, eu os via subindo e indo mais e mais alto. As coisas se iam. Quando os guardava, ia dormir com eles no teto, flutuando, e acordava com eles no chão. As coisas murcham e caem. Estourava pipoca e esperava esfriar. As mordia e não eram mais crocantes. Tem que ser agora. Andava todo dia de bicicleta e o pneu demorava para esvaziar; a deixasse parada e ele logo logo estava precisando ser enchido novamente.

As coisas demasiadamente quentes precisam ser esfriadas. Queimei muito a lingua. E ainda a queimo com capuccinno. Roupas de frio foram feitas para, de tarde, serem carregadas na mão porque a temperatura sobe sempre que o sol sobe, e ela desce, sempre que o sol desce. Dessa forma, também, percebi que o volume da TV aumenta sozinho conforme aumenta o silêncio e que eu preciso abaixar senão minha mãe vinha com aquela cara de sono.

Sempre que ia viajar com meus pais, meus amigos ficavam e eu perdia as melhores brincadeiras e não tinha essas estórias para compartilhar com eles. Perdia uma partida de futebol eu não tinha gols para dizer que eram meus. Faltava e sempre se construiam as mais engraçadas aventuras, e eu fico hoje com saudade da escola. Descuidei da Laika, minha cadela, que fugiu, e me roubou uma semana todinha de vida. Apareceu magra, suja, tadinha, e tinha muitas estórias que nunca me contou. Foi assim que aprendi a contar o tempo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

PINGOS DE SAUDADE

Eis que um 3º faz do velho feliz pelo que o moço conseguiu com a visão do mais novo, de baixo, por detrás, por quase entre a porta, de jeito que só criança sabe que existe aquele lugar para olhar. Uma visão assim, escura, detrás de paco concreto, em altura de olhar menino que em cintura de adulto chega. E que visão limpa das coisas que se tem, são pingos que caem, são saudades que molham o chão. São Pingos de Saudade.

Eis que tal momento, "decisivo" para Bresson, existiu mesmo. Eis que vi se repetir várias e várias e diversas e diversas vezes. Eis que comigo, passado menino e quase moço, também pingos de saudade cheguei a jorrar por aquela mesma caixa azul de fios pratas e curtos, que nem ao chão nos deixa sentar quando bambeavam as pernas. E diversas vezes ele se esticou para me deixar a quase isso. Eis porque eu conheço a representação da foto acima mais do que um instante decisivo pôde conhecer. Eis porque está gravado em carne o que, agora, se verá por olhos.

Eis que assim, mesmo passado anos, volto a olhar o lugar acima e pouco iluminado com a luz de uma saudade gostosa. Carinhos por ali tratei, recebi e cobrei e quantas vezes deixei de dar e quanto isso me deixa doido agora. Em dias assim, com pingos, era balançando o guarda-chuvas que eu deixava escorregar toda saudade para um rio de amor que nutri e cresceu e existe até hoje. E esse rio caminha para um mar, sempre se banhando de novas coisas aos momentos. O mar eu sei que é de Deus, mas não sei por quanto tempo ele vai se manter sem transbordar pelos tantos pingos que derramei e que ainda não desaguaram.

sábado, 10 de outubro de 2009

CARTA PARA QUEM ESTÁ DISTANTE

Que tais carteiros épicos, vestidos de azul ou verde a serenar, encontrem esses endereços espirituais secretos, à margem de um riacho em construção. Porque alí mora meu grande amor, sobre uma monta peculiarmente ornamentada de bromélias e orquídias convalescentes. És imortal e talvez a um remetente precoce não se lembre. Que falta fará um telegrama de amor, a quem está acostumada a ver o começo e o fim das coisas? De certo rirá.

Esse tipo de alma feminina, sempre a encantar, talvez esqueceu-se como encostar a cabeça sobre um peito e ritmar respiração; talvez como entrecruzar os braços e pernas não se lembre, e que falta sente um homem sem o carinho necessário para ser homem outra vez no dia seguinte. Mulheres de Athenas, Carolinas, Iolandas, tais Helenas ainda persistem? Quanta força tenho sem saber que por mim teces e desfias no mesmo em que respiras, que tal saudade é presença - e não falta - e que falta me faz um pouco estar ao lado seu.

Sentes saudades por algo perto mas que se faz distante? Se souber aproximar, me diga, escreva, me conte, porque tenho tentado e falhado. Tenho me colocado na linha de frente, mas sem o oposto para o combate e que falta me faz uma explosão de sentimentos! Como explodir um encontro de sentimentos sem ser assim, explícito, sem assustar, sem acuar um coração não tão intenso, talvez menos que um uma fruta demasiadamente doce. Como aproximar sem deixar minha sombra, antes, a mim anunciar e exponencialmente enganar com sufoco um excesso que, na realidade, é só uma sombra projetada em tamanho irreal? Me responda.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O TEMPO PASSADO

Pois se inventou que o tempo passa, até mecanismos de pulso para se dizer isso fizeram, mas esqueceram de fazer como ele parar. Construiram isso de presente, passado, futuro e não disseram que o futuro nunca existiu e que o presente bem menos porque o agora só existe na consciência - e depois dele próprio se tornar passado. Que cilada carrega-se no pulso aquilo que eu nem quero na alma, nem que se lavada.

Mas repare se não há velocidade no nascer e no pôr do sol. Sente a rapidez da lua em se minguar ou o vento que passa ligeiro para um lugar onde se esconde de voltar. Té mesmo a núvem, branquinha no céu, tem medo de ser algodão e ter que ser colhida, por isso também ela tem isso de passar. Como me parece que tudo já vivi! Vi hoje uma despedida, iguais diferentes olhos mansos mas triste diziam adeus, mas em tom até breve, já nos revemos. Mas nos revemos onde?

Olhinhos bonitos, que beleza passada, onde antes via eu apenas idade. Como eles estão ficando cada dia mais lindos. Os olhos que enrugam são os meus de cegueira da pressa, da fonte da juventude que arde de tanto cloro. Perceba o olhar... calmos são os vividos, não porque já conhecem, pelo contrário, porque se enchem do desconhecido e dele espera algo como quem já não tem algo novo para ver. Sim, de tais olhos saem de tudo. Perdem sono, sem saber porque. Mas eu sei porque. E não conto.

sábado, 3 de outubro de 2009

O SEU MUNDO TAMBÉM É MEU

Ahh... O seu mundo também é meu! Sabe aqueles dias que você fala, fala e eu quieto escuto, escuto, dizem ser isso "mal de mulher", que isso é ansiedade, emocional, que eu nem sequer estou de ouvido. Não que esteja eu longe, ou que sim, talvez sim, mas é porque sigo na imaginação, partilho de um mundo que não o meu e cujas aventuras são delirantes, apaixonantes; cujas preocupações de um gosto raro também meu coração engole. Então você mal respira, perde os pontos, as virgulas, os parágrafos - que eu não tento encontrar - para seguir com suas palavras num mundo que, naquele momento, também é meu.

E escuto (mesmo eu de ouvido longe...), percebo a narrativa que inveja a qualquer Saramago, maravilha, suas palavras condensam suas aventuras e ilusões e perspectivas da forma que eu jamais teria. E eu, por bem, não volto ao consciente, para que voltar, se tal aventura, naquele dia da semana que não nos vimos e guardamos nossas aventuras para compartilhar - e vivê-las juntos -, são ditas no próximo primeiro dia?

Aventuras, tropeços; engraçado, você nunca falou de saudade. Qual espaço tem no seu mundo para a saudade? É quando descubro que vivo um outro mundo pelas suas palavras, que tento nelas encontrar onde é guardado o carinho, o amor, o cochichar não dito. Mas tá escuro essa parte da sua luz, e eu, sem farol algum preso em suas palavras, me perco e me delicio por viver outra vida sem sair do seu lado.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

NO FIM A GENTE VOLTA

Pássaro que volta ao fim do dia para o lugar que saiu, me ensina também a encontrar o caminho quando tudo escuro ficar. Porque do meu caminho me vou errando, sigo, páro, já até voltei antes de ir mais para frente. E sempre fez falta saber para onde voltar, já que sei um dia será inverno e as folhas não estarão nas árvores para eu sequer me alimentar. E sinto frio quando penso nisso, mesmo que leve tempo ainda, mesmo que não leve tempo, mas que o próprio tempo me leve... Tenho poucas penas, pássaro, e quero-as para me aquecer.

Voando, me sinto alto e alto mais eu vou seguir e sei não ter como esquecer minha árvore. Ela fica ali, nem eu acredito. Porque elas [as árvores] são firmes, fortes, delicadas, incondicionais, e mesmo eu alto elas me fazem ver que sai do chão e isso eu não quero. Mas não querer significa ter que aceitar porque, pássado, eu também um dia fui semente e lembro que me abri de uma vez, assim, para fazer igual com a outra semente que de mim germinar. Mas não entendo porque sou pássaro sem penas, sem asas e sou árvore sem sementes. Ainda.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

SE FAZ CHUVA OU SE FAZ SOL

Sobe, dia chuvoso, e deixa a alegria da sombrinha aberta assim, como um sorriso. Tire da metade a parte cheia que te encharca de alegria e a dê a quem anda apressado. Sabe, dia chuvoso, que meu limite de andar não se resume ao que me molha, mas sim ao quanto eu posso pular, e correr, e voar, e voo tão bem que nem asas preciso.

Um submarino, dia chuvoso? É disso que preciso para ver as estrelas e cantarolar com o vento gelado e perdido, que corre em todas as direções - que não são 4 (leste, oeste, norte e sul) - e sim são todas! Não segure aquele avião lá no alto, que sobe mais ainda. Deixe-o ir que ele volta para contar sobre os outros pássaros.

E diga não, mas como quem quer dizer sim, porque o sim negado não se repreende, ele sai sem mesmo saber que foi. E o sabe tão bem quem o escuta, o segura, o vê, o sente. E siga, meu velho dia chuvoso, como quem nada quer, molhando aqui, ali, lá longe e volte para perto. Me parece que você não foi mandado, mas sim é um presença como que quando faz sol. E sempre me faz falta de noitinha.

domingo, 20 de setembro de 2009

OLHA LÁ, SE NÃO É A CIDADE A COCHILAR

É que lá fora, parecendo um borbulhinho, um silêncio me inquieta. É a paz nos ouvidos, o sono do piar dos passarinhos silenciados e as árvores que, sem vento algum, dormem verdinhas. Sabe que isso me acordou? [a suave música me atrapalha... tive que pará-la]. E desperto me lembro que sempre fui dificil para dormir. Não é uma opção que fiz, mas me fiz assim, companheiro da noite, onde penso, repenso e talvez me amadureço.

E colho durante o dia o que passou e amarelou na cabeça por toda a noite. E quando das preocupações vem o sono pesado e sonho pouco. E sinto ter tão pouco tempo que deveria ser físico pois entendo e vejo isso que criamos de tempo de forma tão particular que poucos acreditariam ou poderiam sequer sonhar com os parâmetros que tenho tido. E tenho tido tantos que eu mesmo, ao pensar neles, desejo um momento de esquisofrenia qualquer.

Está claro que agora é um tempo parado. Nada sai do lugar, vide a imagem, todos dormem. Não há carro, não há quase barulho algum [apenas a música, que religuei]. Está claro mesmo escuro lá fora que não resta muito tempo. Isso de ter a noite não é mania, nem boemia. Ela existe e ainda não pude entender. Sei que às vezes até atrapalha, mas não faz mal. Se ela ensina, tem ensino que só se sabe ter aprendido quando dele se precisa adiante, nas experiências da vida. Vou me ter com minha noite mais um pouco, amanhã é mais tempo para lidar.

domingo, 13 de setembro de 2009

O SENTIDO DAS COISAS

Já vi a razão das coisas. Queijo sem goiabada, o leite sem a nata, as coisas perdem-se na falta da outra parte que as dão razão. Igual que nem como mangueira d´água aberta e criança, eu sou com minhas observações. Não que eu pretenda ser pretencioso, nem que eu queria que se queira a outra parte por inteira. Mas é que é assim. E queria contar a última.

Que não se engane, o senhor que detém certo poder, nem que se jure feliz quem a um outro amor compartilha do seu próprio. Muito menos aquele que se retém nos sentimentos, ou que não os exprime por não o saber. Que fique longe o que chora baixinho e não deixa suas lágrimas fazerem barulho, que não veja o que cega-se por um amor inútil. Que não fale à mesa do vinho, nem se embriague da solidão que nos endureçe o coração.

Eu vi que se fecha a quem se abre. Sei também que se abre onde estava fechado. E se você não quer vinho, nem mesmo um cafézinho, que se queira ter ao menos onde assim se sinta feliz. Queria que tal parte oposta se sinta agradecida, pois que suas noites melhorarão ao lembrar um mero olhar piscado. Que se tal carinho foi demasiado breve, na simplitude duma espera ele carrega uma esperança. Igual que nem como mangueira d´água aberta sem criança.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O OLHO DO VELHO

Eis que por ai os velhos olhos do velho observaram os olhos do velho Niemayer. Em Curitiba. Olhos fadigados, mas que brilham ao ver tais outros do por demais arquiteto brasileiro. Assim que outros olhos também olharam e quiseram ver, mas tal levantador de arte concreta não assim o fez: seu olho interiorizando a arte, um vão que de museu funciona, mas que de olho se nega a olhar. O olho de Curitiba é olho piscado que não se abre, ao menos naquele dia se manteve obrigando-nos a olhar apenas para dentro. Talvez cerrava breve choro baixinho.

Então meus velhos olhos se sentiram futurizados, como que mortos por natureza fechados, proibidos de perceber além aquilo. E Niemayer fez bem, fez assim mesmo, para que se olhe dentro e não fora. Mas olho se olha para fora, e os meus assim quiseram e frustrados se puseram, DE-SES-PE-RA-DA-MEN-TE, acreditem quando digo, a procurar o olhar pelo olho do outro velho construtor. E assim como que cansados, mas perspicazes e incapazes de aceitar o que o outro por demais velho mandava, meus olhos já esbranquiçados viu o que só se sente em despedidas.

A hora certa e decisiva havia chegado. E quando chega, depois que passa, mesmo sob chuva forte, ele o coração se enaltece, se enobrece e canta em gratidão contida, quase como que em lágrimas caiam do escuro céu já acinzentado. E então este velho que vos escreve primeiro viu pelo coração, emotivou sua razão e se lembrou dos olhos postiços que trazia a tira colo. Eis que por eles pôde ver para fora dos olhos; E-MO-CI-O-NA-DO, lançou mais outros olhos para fora do olho que não deixa olhar. E um novo e belo olhar foi feito para além da obra do grande Niemayer.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

TUM TUM TUM BATE O CORAÇÃO

Se me sinto assim é porque as bençãos me foram dadas. Sabe quando o coração aquieta, pois é. E veja: amarelo são meus sorrisos. Passei a escutar as cores porque elas é sim que me fazem sentido. São palavras que somos abençoados a ver, como somos agraciados por ouvir nosso coração. Veja que se o coração bate bate macio. E se tá torto é causo médico. E ele, o Dr., aprendeu a ouvir. Acho que se eu fosse doutor do coração eu escolheria um bom pela cor.

Mas quero mais é descançar, conheço médicos, eles estudam muito. Não que me faltou energia. Nem posso dizer que não tive oportunidade. Mas me levei pelo barulhinho simsim pirilim pimpim que fazem as palavras. E elas se escondem como se esconde uma batida do coração. E se o tal elétro pega esse badulaque que se escondeu, azar o meu escolher o mais difícil, como é quase impossível achar uma palavra escondida. Ela não demonstra ela se des-mostra.

E se ele precisa de outro coração para arrumar o barulhinho escondido, do que preciso eu? Vinho sei que é ótimo, saudade também e amigos por toda a parte, pelas partes de longe, de preferência, porque ai vem mais forte a presença em forma de saudade. E a memória que é uma forma de viver um pouquinho mais.

Ai então eu pego aquela palavra que falta pelo laço. Nem que seja uma simples letras para os que me julgam tolo por ter nas mãos o tudo que forma a todos. E se me falta um simples "c", o doutor que me perdoe, mas posso dar-lhe apenas um "oração". E se não encontro fica o coração sem seu tum tum tum. Mas tudo bem, ao menos deus escutará.