sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

COM OS PÉS NO CHÃO E A CABEÇA NAS NÚVENS

Com sua coleirinha preferida de onçinha, nuvenzinha minha mais eu fomos caminhar. Travessamos pontes, tiramos os sapatos e pusemos nossos pés nágua dum riacho, enchido por ela mesma. Sempre caminhamos por ai, especialmente em dias turbulentos e em horas que demoram para passar. Faz, quem sabe, a vida um pouco mais ser aceita, diminui desprazeres e aumenta muito nossas coxas, que ficam gostosinhas para serem apertadas de noite, na cama.

E precisa ver como nossas cabeças ficam leves! Nuvenzinha até avoa, às vezes para longe, porque leve se sente poder ir mais pra lá ainda. Eu solto corda, porque eu sei que ela volta. Mas um dia deu que não voltou. Pus tênis macio e fui buscar. Não achei. Emprestei um carro e sai a noite, que é quando nuvenzinha branca se destaca no céu e brilha formosa feito televisão LCD. Estava ela lá, deitada numa lombada com sua amiga, conversando.

Depois desse dia comprei a colera de onçinha, que ela usa porque adorou a cor. Nunca tentei segurá-la perto, mas sei que soa contraditório. Na verdade nossa cordinha é de fio de amor, finíssimo, porque o amor é raro. E delicado como só vendo: se puxar, até de leve, quebra e podemos ir cada qual para seu lado preferido. Eu, talvez, visitaria lugares que me lembram nuvenzinha; ela, quem sabe, deitaria com seus amigos em lombadas por ai...

Um comentário:

Pipa. A que sonha. disse...

Que comparação mais encantadora. Manifesto minha lisonja. De outro norte, quando descreveu aquela sensação de folhas secas no rosto. Queria lhe dizer que eu também a carrego. Mas no coração. Escondo frequentemente minha natureza de fada madrinha, sob um semblante severo de uma juventude grisalha e confusa. Espero um dia morrer criança. E me render atormentada pela imagem de uma suavidade que criei no interior de minha mente para não morrer de tristeza. Se me visse agora, leria o meu rosto com as mãos. E dividir meu caldo e minhas sobras de pão com você, por mais escasso que pareça, eles são tudo o que tenho. Poderia ser um doce ou pedaço de bolo, mas as formigas tomaram conta deles na noite passada, e não me sobrou nada.


Ler você me deixa com um grande apetite literário.


P.S.: Te abraço forte.


Pipa.