quarta-feira, 18 de novembro de 2009

EU DO LADO TEU

Hoje me ocorreu. Da última vez nem me lembro quando eu do lado teu perguntei qualquer coisa descompromissadamente. Eu, que aprendi a não falar com estranhos, levei isso muito a sério. Aprendi ainda muitas coisas que também levei a sério e hoje elas me faltam. Aprendi que o céu não é azul porque reflete o mar, e isso me afastou dos oceanos. As núvens não são de algodão e eu nem tive tempo de bem quere-las doce. Imagine se bato no teu ombro e lhe conto isso.

Ali, do lado, um grupo conversa. Se conhecem. Eu, só no instante, não conheco ninguém, apesar de tê-los conhecido por aquela história do Estreito de Bering, tal; ou das imigrações. Atrás tem outro grupo que ri. Conversam, trocam impressão. Não me perguntam da minha. Não me olham nos olhos. Tem medo de mim. E eu, tão acarentado daquilo que nos falta, da humanidade que ainda não temos, faço o mesmo, porque também me falta. Mas me proponho a quebrar isso.

Quando encontrar um tempo/espaço adequado, acreditando poder haver um, olharei para o lado e tocarei um ombro qualquer, e direi algo como: - está calor hoje, hun? Não... melhor não, melhor dizer a verdade, sem frases comuns, sem tipos batidos já. Conto se recuperar o que me desfaz de humano, aquilo que me transforma em social individual ao invés de um indivíduo ao pé da palavra social. Não se assuste se, após o toque, lhe contar que comprei um perfume em 4x sem juros com entrada para 60 dias. Carnaval já tem conta para pagar.

*PS: merecidos créditos para a imagem de uma amiga, a "São Paulo" (preservarei o pseudônimo utilizado em sua página). Mais do trabalho desse ótimo olhar que nos empresta, aqui.

sábado, 14 de novembro de 2009

AMORAL

E assim ele se reclusou, primeiro, para organizar as ideias e refletir sobre elas. Organizou primeiro os sentimentos, sem palavras, para não perder a essência de cada uma daquelas interações químicas. Depois, tentou esquecer a química, ideia dos homens, construida e fundamentada por eles. Depois, tentou esquecer que pensava segundo aquele sistema que havia aprendida na escola. Apagou todas as aulas da memória e realmente reprogramou seu cérebro, fugindo daquilo que outro homem chamou de consciente e inconsciente, passando pelo subconsciente até entrar no quesito puramente incestuoso.

Por consequência, tornou se amoral. Sem sentimentos, sem ideias, sem ética, sem moral alguma. E isso lhe fez nem bem nem mal. Fez se a ele mesmo apenas. As palavras perderam sentido, não mais significavam. O pensamento, agora, funcionava de outra forma. As sensações eram puras, os sentimentos haviam mudados, já que agora, amoral, muita coisa perdera sentido sem a imposição de uma sociedade. O simples bocejar fora de hora, ofensa para alguns, agora era não mais do que ele mesmo e só. Depois da reclusão, tentou voltar, descer o morro e gritar aos seus iguais. Mas lhe ocorreu que outro poderia tê-lo feito. E se calou. E calando-se, voltou a sua anormalidade. Zaratustra ficou no chinelo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

AUTO RETRATO

Não é o saber que a ele incomoda, as histórias já vividas, o tempo já passado. É saber que ele tem pouco tempo para viver as histórias que gostaria, de sofrer muito e se modificar, de gozar das rosas, margaridas e orquídias que por ai se dá. Ele criou a consciêcia sobre o tempo. Sabe que prefere o azul, mas se tiver verde é uma cor para antes da preferida. Bebe água mas, se não tiver, prova do que estiver ao alcanse.

Escolheu uma profissão, mas percebe que adoraria outras. Não há tempo. Não porque não se pode recomeçar, mas porque nunca se recomeça. O começo é uma vez só, se dá na barrida da outra. Por isso ele olha a si e pensa que, talvez, sejas apenas mera representação dele mesmo. Procura um lugar que já tenha andado. Gosta de nele pensar sobre os outros. Se sente inseguro. Tem medo. Muito medo. Mas disfarça bem. Muito bem. Não transparece.

Tem segredos. Poucos. Tão banais, formaram apenas alguém que hoje é ele. Procura por si nessas histórias, olha para trás, vê bem. Então se olha no espelho, se olha para fora procurando o que está dentro. É mais facil achar no outro, no do espelho, que o fita nos olhos, ameaçadoramente, como se o de cá, o que provê o contato, fosse responsável. Não sabem o que procurar. Não encontraram sequer a direção, ou o rumo do vento que sopra.

Ele quer sair, está triste. É tarde, mas não importa. Porém, sabe que de nada adiantará e liga a TV. Senta. Passa todos os canais. Todos eles não tapam o barulho que agora escuta, nessa silenciosa madrugada. Vem de dentro. Alto, muito alto, e falam de coisas sem sentido. Nem ele entende. Então volta ao espelho. Fita o outro nos olhos, que volta a ameaçar-lhe. O recado é claro e silencioso. Ameaçam-se ao mesmo tempo. E cumprem o não dito.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

COMO PIEDADE

Nós, o homem inferior, aquele que sente, que vê, que fala sem saber direito sequer como o fazer; nós, que tantas vezes podemos dar de nossa mão, mas que a escondemos no bolso da frente da calça diante da dignidade humana e ameaçadoramente impune; nós, que tanto construímos mas sequer nos preocupamos em fazer com que isso seja do outro - e queremos sempre nosso papel de dinheiro; nós que andamos, rimos e choramos, que pedimos muito mais do que oferecemos - e mesmo assim - não entendemos nem a nós mesmos, meu deus.

Como se pode desejar compreender o outro? Mesmo assim, ela, com sua mão sobre o peito, representa como quem ora e pede e crê. Seus olhos ausentes nos amplifica nossa reconstrução: estará encharcado de lágrimas enquanto o pede.

Sim, também imagino que respira ofegantemente, como quem por ver, a si mesma se sente agredida. Que voz vigilante intercede por nós, o homem inferior! Gesticula em estática uma breve oração, um pedido, uma intervenção que nos rende graças. Mas, vendo o homem sentado diante da cena em purificação, me penso que talvez, e ai sim eu compreenda melhor a humanidade, penso que talvez o homem sequer esteja pensando em graça: busca apenas uma coisa bem gostosa para por na boca e saborear pelo tempo que lhe for permitido.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

COMO APRENDI A CONTAR O TEMPO

Quando perdia meus balões, eu os via subindo e indo mais e mais alto. As coisas se iam. Quando os guardava, ia dormir com eles no teto, flutuando, e acordava com eles no chão. As coisas murcham e caem. Estourava pipoca e esperava esfriar. As mordia e não eram mais crocantes. Tem que ser agora. Andava todo dia de bicicleta e o pneu demorava para esvaziar; a deixasse parada e ele logo logo estava precisando ser enchido novamente.

As coisas demasiadamente quentes precisam ser esfriadas. Queimei muito a lingua. E ainda a queimo com capuccinno. Roupas de frio foram feitas para, de tarde, serem carregadas na mão porque a temperatura sobe sempre que o sol sobe, e ela desce, sempre que o sol desce. Dessa forma, também, percebi que o volume da TV aumenta sozinho conforme aumenta o silêncio e que eu preciso abaixar senão minha mãe vinha com aquela cara de sono.

Sempre que ia viajar com meus pais, meus amigos ficavam e eu perdia as melhores brincadeiras e não tinha essas estórias para compartilhar com eles. Perdia uma partida de futebol eu não tinha gols para dizer que eram meus. Faltava e sempre se construiam as mais engraçadas aventuras, e eu fico hoje com saudade da escola. Descuidei da Laika, minha cadela, que fugiu, e me roubou uma semana todinha de vida. Apareceu magra, suja, tadinha, e tinha muitas estórias que nunca me contou. Foi assim que aprendi a contar o tempo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

PINGOS DE SAUDADE

Eis que um 3º faz do velho feliz pelo que o moço conseguiu com a visão do mais novo, de baixo, por detrás, por quase entre a porta, de jeito que só criança sabe que existe aquele lugar para olhar. Uma visão assim, escura, detrás de paco concreto, em altura de olhar menino que em cintura de adulto chega. E que visão limpa das coisas que se tem, são pingos que caem, são saudades que molham o chão. São Pingos de Saudade.

Eis que tal momento, "decisivo" para Bresson, existiu mesmo. Eis que vi se repetir várias e várias e diversas e diversas vezes. Eis que comigo, passado menino e quase moço, também pingos de saudade cheguei a jorrar por aquela mesma caixa azul de fios pratas e curtos, que nem ao chão nos deixa sentar quando bambeavam as pernas. E diversas vezes ele se esticou para me deixar a quase isso. Eis porque eu conheço a representação da foto acima mais do que um instante decisivo pôde conhecer. Eis porque está gravado em carne o que, agora, se verá por olhos.

Eis que assim, mesmo passado anos, volto a olhar o lugar acima e pouco iluminado com a luz de uma saudade gostosa. Carinhos por ali tratei, recebi e cobrei e quantas vezes deixei de dar e quanto isso me deixa doido agora. Em dias assim, com pingos, era balançando o guarda-chuvas que eu deixava escorregar toda saudade para um rio de amor que nutri e cresceu e existe até hoje. E esse rio caminha para um mar, sempre se banhando de novas coisas aos momentos. O mar eu sei que é de Deus, mas não sei por quanto tempo ele vai se manter sem transbordar pelos tantos pingos que derramei e que ainda não desaguaram.

sábado, 10 de outubro de 2009

CARTA PARA QUEM ESTÁ DISTANTE

Que tais carteiros épicos, vestidos de azul ou verde a serenar, encontrem esses endereços espirituais secretos, à margem de um riacho em construção. Porque alí mora meu grande amor, sobre uma monta peculiarmente ornamentada de bromélias e orquídias convalescentes. És imortal e talvez a um remetente precoce não se lembre. Que falta fará um telegrama de amor, a quem está acostumada a ver o começo e o fim das coisas? De certo rirá.

Esse tipo de alma feminina, sempre a encantar, talvez esqueceu-se como encostar a cabeça sobre um peito e ritmar respiração; talvez como entrecruzar os braços e pernas não se lembre, e que falta sente um homem sem o carinho necessário para ser homem outra vez no dia seguinte. Mulheres de Athenas, Carolinas, Iolandas, tais Helenas ainda persistem? Quanta força tenho sem saber que por mim teces e desfias no mesmo em que respiras, que tal saudade é presença - e não falta - e que falta me faz um pouco estar ao lado seu.

Sentes saudades por algo perto mas que se faz distante? Se souber aproximar, me diga, escreva, me conte, porque tenho tentado e falhado. Tenho me colocado na linha de frente, mas sem o oposto para o combate e que falta me faz uma explosão de sentimentos! Como explodir um encontro de sentimentos sem ser assim, explícito, sem assustar, sem acuar um coração não tão intenso, talvez menos que um uma fruta demasiadamente doce. Como aproximar sem deixar minha sombra, antes, a mim anunciar e exponencialmente enganar com sufoco um excesso que, na realidade, é só uma sombra projetada em tamanho irreal? Me responda.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O TEMPO PASSADO

Pois se inventou que o tempo passa, até mecanismos de pulso para se dizer isso fizeram, mas esqueceram de fazer como ele parar. Construiram isso de presente, passado, futuro e não disseram que o futuro nunca existiu e que o presente bem menos porque o agora só existe na consciência - e depois dele próprio se tornar passado. Que cilada carrega-se no pulso aquilo que eu nem quero na alma, nem que se lavada.

Mas repare se não há velocidade no nascer e no pôr do sol. Sente a rapidez da lua em se minguar ou o vento que passa ligeiro para um lugar onde se esconde de voltar. Té mesmo a núvem, branquinha no céu, tem medo de ser algodão e ter que ser colhida, por isso também ela tem isso de passar. Como me parece que tudo já vivi! Vi hoje uma despedida, iguais diferentes olhos mansos mas triste diziam adeus, mas em tom até breve, já nos revemos. Mas nos revemos onde?

Olhinhos bonitos, que beleza passada, onde antes via eu apenas idade. Como eles estão ficando cada dia mais lindos. Os olhos que enrugam são os meus de cegueira da pressa, da fonte da juventude que arde de tanto cloro. Perceba o olhar... calmos são os vividos, não porque já conhecem, pelo contrário, porque se enchem do desconhecido e dele espera algo como quem já não tem algo novo para ver. Sim, de tais olhos saem de tudo. Perdem sono, sem saber porque. Mas eu sei porque. E não conto.