terça-feira, 19 de junho de 2012

Redenção



A benção é que é uma redenção. Mas dói. Tanto que me encolhi. Tanto que me perdi. Tanto que senti frio, soluçava e ria em espaços regulares. Tanto que lembrava de antigos conselhos de mãe. Tanto. E mais um pouco vertia em pranto. Sinto. Tantas coisas que buscava palavras pra manter a lucidez. Então novamente me encolhia. O choro, a vela, os pensamentos vagos, sem direção. Sentimentos. Quantos! Onde estão? Todos naquele momento ausentes. O coração doido sem doença alguma. A alma sendo lavada, e na boca aquele gosto salgado. A pele gelada. A razão me dava um pouco de consolo. E novamente ela se ia. E, então, desespero ali no chão da sala. Ainda subitamente me pego em controle. E espero desesperadamente a noite chegar. O tempo não passa. Já passou tanto tempo. No carro (dia-a-dia continua) nova vontade. Paro. Tiro óculos escuros. E mais um pouco me lavo. Procuro minha casa, tão distante. Quero solidão. Há sentimentos sujos, escondidos. E preciso lavá-los, caçá-los. Entendê-los. Mas é que é preciso. A opção é não desistir. 

São coisas que precisam ser resolvidas. Indiferentemente de tantas outras questões. Por mim. Senti algo como vergonha. Senti profundo espaço incompleto. Sozinho ali. A criança tomou a frente e sentou, velho e moço, a olharem-na. E então passou a soluçar tudo aquilo. Desesperou-os. Criança que somos, todos soluçávamos. Mas sem abraços. Então percebi que todos os três se foram. Deixaram meu infinito um espaço em expansão. Suportei, entretanto. Mas a que custas? Antes era preciso entender o vazio. Agora, as cicatrizes. E verto novamente em pranto. E me encolho no chão frio pro colchão não suavizar. Dor necessária. Dor que vai de dentro pra fora. Não quero prendê-la. Quero chorá-la. Trai-me a memória. Ela falha. Não elucida. Confunde. E penso coisas pra garantir um futuro, pra iludir uma alma que pede por qualquer consolo. 

Pedi pra que ficasse pra amanhã a conversa. E ficou, não sem grande falatório. Não havia dimensão pra coisa. Parecia exigir um vazio de um copo pra encher minha caixa de sentimentos. Me fiz forte pra uma expectativa, que em último tempo se dissipou. Mais rapidamente do que chegou. E não entendo dessas coisas de tempo. Mas devo ter errado em algum ponto. Enfim. Na hora, então, mostrei meu peito. E agora tenho algo como vergonha. Tal dor era tanta. Impossível não ser infeccioso. Mas se queria ver, viu. Como o menino, moço e velho, se desesperou. Tanto ali me lavei que criava mais sujeira. Quanto ainda demora pra limpar? Sei que ainda me encolho nas noites. E ainda dói tanto. E ainda discutem o tamanho do universo. É pouco. Já fui ao seu fim e voltei várias vezes essas semanas. O espaço é pequeno pra essa dor. Não sei como entender isso tudo. 

Um comentário:

Pipa. A Pipa dos Ventos. disse...

O frio que faz aqui dentro está congelando até pensamentos, café?!


Teu post remeteu-me a esta passagem de Enigma, Return To Innocence

"Amor ... devoção ...
Sentimento ... emoção...

Não tenha medo de ser fraco
Não tenha tanto orgulho de ser forte
Apenas olhe dentro de seu coração, meu amigo
Esse será o retorno a você mesmo
O retorno à inocência

Se você quer, então comece a rir
Se você deve, então comece a chorar
Seja você mesmo não se esconda
Apenas acredite no destino

Não se importe com o que os outros dizem
Apenas siga seu próprio caminho
Não desista e use a chance
Para retornar à inocência

Esse não é o começo do fim
Esse é o retorno a você mesmo
O retorno à inocência."


http://www.youtube.com/watch?v=Rk_sAHh9s08


Examinei-o cuidadosamente e apontei para o céu ao lado da parede.

Velho, olha só,o céu é "vede, vede, vede, é vê-de..."

"O presente é tão grande. Não nos afastemos. Não nos afastemos muito. Vamos de mãos dadas."

Drumond de Andrade


Um abraço interminável.

De quem te admira,

Pipa.